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Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

Por Redação • 16 de setembro de 2026 às 18:49

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

Perfis no Instagram que promovem políticos bolsonaristas, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), passaram a atuar de forma articulada para impulsionar perfis dedicados ao ministro André Mendonça nas redes sociais em meio à crise no STF (Supremo Tribunal Federal) provocada pelo caso Master.

Um levantamento do Aos Fatos identificou na rede social da Meta ao menos 24 perfis dedicados ao magistrado e promovidos por meio de publicações colaborativas e convocações para que seguidores de contas políticas de extrema-direita passassem a acompanhá-los.

Há entre esses perfis aqueles que nem mesmo foram criados originalmente para enaltecer Mendonça: ao menos dois são contas preexistentes que trocaram de nome e passaram a se dedicar exclusivamente ao magistrado em setembro, após o estopim da crise.

Essa prática é conhecida como astroturfing, movimento que simula um apoio popular espontâneo, mas que é, na verdade, orquestrado por grupos de interesse.

Por que isso importa?

  • Redes bolsonaristas atuam de forma articulada para inflar apoio a Mendonça em meio à crise no STF

O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, existe desde novembro de 2024, mudou de nome oito vezes desde então e recebeu o selo de verificação do Instagram em agosto. Antes de aderir de vez a Mendonça, o perfil já republicava posts religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol.

A imagem mostra uma captura de tela do perfil do Instagram 'andremendoncas2', com selo azul de verificação e botão 'Seguir'. A publicação exibe uma grade de imagens com conteúdo predominantemente religioso e mensagens de fé. Entre as imagens aparecem um jogador de futebol com uma camisa do Flamengo e a frase 'Jesus é suficiente', uma representação de Jesus, uma pessoa ajoelhada em oração, um homem pregando diante de um púlpito, uma criança, um cachorro com a frase 'Good morning!', além de imagens com referências bíblicas e frases como 'Muito em breve, você vai sorrir e dizer: Deus, isso e mais do que imaginei, obrigado! Mande para você mesmo', 'Só passa pro lado, confia em mim!', 'Tem peito pra ler essa?', 'Satanás não quer que você leia isto'.
Reposts do perfil @andremendoncas2 demonstram que página já existia e publicava conteúdo religioso

O segundo com maior engajamento, criado em abril, mudou de nome duas vezes e, assim como o primeiro, não exibe publicações anteriores a setembro. O Instagram não informa quais eram os nomes anteriores das contas. 

A movimentação ocorre enquanto Mendonça é ungido como símbolo religioso nas redes. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pelo Aos Fatos que equiparam a atuação do ministro a uma jornada do herói evangélica somaram 228 milhões de visualizações. 

Em geral, esses conteúdos pedem orações pelo magistrado, o apresentam como um “servo de Deus” e retratam sua performance no STF como se fosse uma missão divina. No entanto, não é possível determinar em que medida esse engajamento é autêntico.

Cruzada nas redes

Desde que a crise transbordou no STF, no início de setembro, o Aos Fatos identificou ao menos 24 perfis dedicados a Mendonça no Instagram, que somavam 5,6 milhões de seguidores até quarta-feira (16). Destes, 12 já existiam antes da crise no STF e apenas trocaram de nome.

As contas @andremendoncas2 e @andremendoncas3, que, juntas, têm quase 3 milhões de seguidores, já existiam antes de setembro e passaram por mudanças de nome antes da identidade atual.

A @andremendoncas2, hoje com 1,9 milhão de seguidores, foi criada em novembro de 2024, mas não mantém nenhuma publicação anterior a setembro deste ano.

Print de tela mostra dados sobre a conta Andremendoncas2. No topo da tela, está escrito: Sobre esta conta. Logo abaixo está o ícone do perfil. Alguns dados aparecem abaixo: data de entrada: Novembro de 2024; Conta situada em: Brasil; Nomes de usuários anteriores (8). Verificação: agosto de 2026.
Apesar das mudanças, a plataforma não informa quais eram os nomes anteriores do perfil

O mesmo padrão aparece na @andremendoncas3. A conta foi criada em abril, mudou de nome duas vezes e também não exibe publicações anteriores a setembro.

Os primeiros posts atualmente disponíveis nesses perfis foram publicados em 5 e 7 de setembro. Desde então, os dois passaram a funcionar como perfis de apoio a Mendonça, compartilhando publicações quase idênticas, muitas das quais também distribuídas por outras contas identificadas no levantamento do Aos Fatos.

Captura de tela mostra postagens idênticas de duas contas: @michellepresidentes2 e @andremendoncas3. A legenda da postagem diz: ‘Em uma declaração marcada pela fé, o ministro do STF André Mendonça falou sobre aquilo que considera sua principal missão: servir a Deus e honrar o nome de Jesus Cristo. Mendonça pediu orações, reafirmou sua confiança nas promessas de Deus e destacou que sua caminhada não está baseada em méritos pessoais. Para ele, quanto maior a proximidade com Deus, maior também é a consciência das próprias limitações e falhas. O ministro ainda relembrou uma mensagem sobre promessas que ouviu de um pastor durante um culto, reforçando publicamente sua convicção na fé cristã e a importância de manter um testemunho coerente com aquilo em que acredita. Em tempos de tanta tensão e divisão no Brasil, uma declaração de fé vinda de uma das maiores autoridades do Judiciário certamente chama atenção’
Diferentes contas publicam posts quase idênticos com o objetivo de angariar seguidores para os perfis de apoio a Mendonça

A identidade religiosa que impulsiona a mobilização aparece desde os primeiros posts disponíveis dos dois perfis. Ambos, inclusive, enganam ao associar uma pregação feita pelo ministro em fevereiro deste ano, durante uma conferência cristã de apoio a mães de pessoas atípicas, às discussões recentes no STF. Até esta quarta-feira (16), essas publicações acumulavam cerca de 2 milhões de visualizações.

Captura de tela mostra postagens idênticas de duas contas (@andremendoncas2 e @andremendoncas3). A imagem dos posts incluem uma imagem do ministro e, ao lado, imagem de outros integrantes da corte. Um texto em um fundo branco que diz: Profeta no STF, André Mendonça manda forte recado para os poderosos.
Ministro é retratado em tom messiânico por perfis de apoio

As novas identidades das contas passaram a ser impulsionadas por perfis com audiências já consolidadas. O @nikolasferreiradms3, que usa o nome e a imagem do deputado federal mineiro, por exemplo, publicou uma chamada para que seu público seguisse a @andremendoncas2.

A imagem mostra uma captura de tela de uma publicação no Instagram. À esquerda, há uma montagem com fotos de Alexandre de Moraes e André Mendonça tendo ao fundo a bandeira do Brasil, o prédio do tribunal e uma estátua. Sobre a imagem aparecem as frases 'GRANDE DIA!', 'PÁGINA DE APOIO AO MENDONÇA', 'ACABA DE BATER' e '18 MILHÃO SEGUIDORES', além do perfil '@andremendoncas2'. À direita, aparece uma publicação do perfil 'nikolasferreiradms3', com a chamada ‘SIGA @andremendoncas2 André Mendonça tem seu apoio? Sim ou NÃO?'. O texto apresenta informações sobre a trajetória acadêmica de André Mendonça.

Aos Fatos identificou ainda um padrão que sinaliza a existência de uma articulação na rede social: o uso do recurso de collabs do Instagram entre esses perfis e outros dedicados a políticos bolsonaristas.

Em outros casos, diferentes perfis reproduziram imagens, vídeos e legendas idênticas e direcionaram seus seguidores para uma mesma página de apoio ao ministro.

Uma mesma postagem que anunciava que um perfil dedicado ao ministro havia superado 240 mil seguidores em 24 horas, por exemplo, foi distribuída por diferentes perfis bolsonaristas.

A imagem é uma montagem de capturas de tela de publicações no Instagram. À esquerda, há uma arte com uma fotografia de André Mendonça sorrindo, usando toga preta e gravata vermelha, com outras pessoas ao fundo. Sobre a imagem, aparecem os textos 'GRANDE DIA!', 'PÁGINA DE APOIO AO MENDONÇA', 'ACABA DE BATER MAIS DE 240 MIL SEGUIDORES EM 24 HORAS!' e 'SE VOCÊ AINDA NÃO FAZ PARTE, BASTA SEGUIR O PERFIL DE APOIO ABAIXO DESTA IMAGEM!'. Na parte inferior, aparece a identificação @andremendoncas3 e uma bandeira do Brasil. A montagem demonstra que outros perfis publicaram a mesma peça em datas similares.
Ciclo de amplificação: perfis com audiências direcionam seguidores para contas de apoio a Mendonça e transformam crescimento em conteúdo

Servo de Deus

A escalada da disputa entre os ministros do Supremo foi acompanhada por uma explosão de conteúdos em defesa de Mendonça no Instagram em perfis religiosos, contas ditas noticiosas e políticos bolsonaristas.

A disputa institucional em torno das revelações do caso Master é apresentada como uma missão atribuída ao ministro por Deus ou como uma batalha entre o bem e o mal, formulação comumente utilizada pelo ex-presidente Bolsonaro ao longo de seu mandato.

A imagem traz, na parte superior, a frase 'Nunca foi TÃO FÁCIL escolher um lado!', acompanhada de uma bandeira do Brasil. Abaixo, há duas ilustrações lado a lado. À esquerda, um homem representando Jesus aparece beijando a testa de outro homem e colocando uma das mãos sobre a cabeça dele. À direita, uma figura com aparência demoníaca, com chifres, orelhas pontudas e pele enrugada, coloca a mão sobre a cabeça de outro homem. Na parte inferior, aparece a pergunta 'Quem você escolhe', seguida das opções 'Deus' e 'Diabo', com a palavra 'Ou' entre elas.
Posts comparam ministros a figuras religiosas em busca por engajamento

A mobilização também foi incorporada ao discurso eleitoral. Das publicações analisadas, 20 foram feitas por candidatos ou políticos com mandato. Exemplo disso é o deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), candidato a vice na chapa presidencial de Flávio, que associou a disputa envolvendo o magistrado à eleição de outubro.

Segundo ele, Moraes e o presidente Lula (PT) representariam um “sistema” que estaria tentando impedir Mendonça de avançar nas investigações sobre o Banco Master e as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social): “que Deus abençoe o ministro André Mendonça”. Até esta quarta-feira (16), o vídeo acumulava 2,2 milhões de visualizações e 27 mil compartilhamentos.

A imagem mostra uma captura de tela de uma publicação no Instagram. À esquerda, aparece o perfil identificado como 'alfredogaspar', seguido de um selo de verificação e da opção 'Seguir'. A legenda diz: 'O Brasil está vivendo uma crise institucional sem precedentes. O sistema corrupto quer trucidar a verdade. As próximas horas são de extrema atenção, e o povo brasileiro tem que ficar atento. Deus abençoe o ministro André Mendonça.' Em seguida, o texto afirma: 'Diante do desespero dos que estão no poder e da iminente vitória do presidente Flávio Bolsonaro, toda atenção para qualquer armação ou ataque ao nosso próximo presidente, Flávio Bolsonaro. Eles são capazes de tudo!' Na parte inferior da legenda aparece 'PARTIDO LIBERAL – PL – 68.581.907/0001-25'. À direita, há um vídeo vertical mostrando um homem de cabelos grisalhos sentado dentro de um carro, usando camisa clara, paletó escuro e cinto de segurança. Sobre o vídeo aparece, em letras grandes vermelhas, a palavra 'Urgente!'. No lado direito da tela estão os ícones de curtida, comentários, compartilhamento e outras opções, com a indicação de 24,3 mil comentários e 27 mil compartilhamento.
Vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar publicou vídeo relacionando Mendonça, Deus e as eleições

Segundo Marcos Jorge, coordenador jurídico do escritório Wilson Gomes Advogados e especialista em direito eleitoral, a legislação não proíbe que candidatos compartilhem declarações de autoridades, manifestem apoio ou utilizem falas de Mendonça durante a campanha.

A avaliação seria diferente caso as publicações atribuíssem ao ministro um apoio eleitoral inexistente, segundo o especialista. Gaspar, por exemplo, apesar de realizar uma associação explícita entre Mendonça e Flávio, não atribuiu ao ministro um apoio que ele não declarou.

Também haveria problema caso fosse demonstrada anuência ou articulação prévia de Mendonça para o uso eleitoral de suas manifestações, observa Jorge.

O advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca afirma que, neste caso, a conduta poderia suscitar questionamentos éticos e constitucionais. O Aos Fatos não encontrou evidências de que Mendonça autorizou ou participou da elaboração dessas publicações.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com o gabinete de André Mendonça e com as assessorias de imprensa do deputado federal Nikolas Ferreira e do senador Flávio Bolsonaro para abrir espaço para comentários.

A reportagem tentou ligar para o gabinete de Alfredo Gaspar mas, como ninguém atendeu, enviou um e-mail com um resumo da citação feita no texto. Nenhum dos quatro citados havia respondido até a publicação desta reportagem.

Aos Fatos também enviou um pedido de posicionamento para a Meta questionando se a reutilização de uma conta com audiência preexistente, após sucessivas mudanças de nome e de temática, para promover uma figura pública, violaria regras da plataforma. A reportagem será atualizada em caso de resposta.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou 156 publicações no Instagram encontradas a partir dos termos “Mendonça” e “Deus”, classificando os conteúdos de acordo com os perfis responsáveis, o alcance e as principais narrativas utilizadas na defesa do magistrado.

A reportagem também mapeou 24 contas dedicadas a Mendonça e analisou informações disponibilizadas pela própria plataforma, como data de criação dos perfis e mudanças de nome, identificando uma rede de contas políticas que impulsionam perfis de apoio ao ministro. 

Por fim, Aos Fatos entrevistou Guilherme Arduini, coordenador do LAR (Laboratório de Antropologia da Religião) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o especialista em direito eleitoral Marcos Jorge e o advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca sobre a mobilização religiosa em torno de Mendonça e os limites jurídicos dessa atuação.

Fonte: Agência Pública. Matéria original.

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