Como Vorcaro usou a imprensa para sua rota de fuga frustrada pela PF
Por Redação • 11 de setembro de 2026 às 15:30

As relações de Daniel Vorcaro com jornalistas tiveram papel importante no seu plano de fuga no dia 17 de novembro do ano passado, frustrado pela Polícia Federal (PF) no aeroporto de Guarulhos quando ele se preparava para embarcar em um jato particular para os Emirados Árabes. É o que se percebe ao analisar a cronologia do dia da prisão, à luz de um documento da PF, liberado pelo ministro André Mendonça por determinação do ministro Edson Fachin.
No dia 17 de novembro de 2025, às 7h41, minutos depois de falar com seu então advogado, Walfrido Warde, ele conversou com o jornalista Diego Escosteguy, do site O Bastidor, sobre uma reportagem com informações que ele mesmo teria repassado ao jornalista, segundo os investigadores. Às 11h, recebe de volta o link da matéria publicada e o envia para Warde.

A reportagem de Escosteguy menciona um inquérito policial sigiloso contra o Master que corre na 10ª Vara Federal do Distrito Federal (DF), do qual Vorcaro já tinha conhecimento, inclusive do nome do juiz que o presidia, como revelam anotações anteriores no bloco de notas no celular do banqueiro preso.
Como as informações foram obtidas de forma ilegal ou de informantes que não poderiam aparecer, Vorcaro não tinha como entrar com pedidos na Justiça. Mas, de posse da reportagem, como se fosse a partir dela que tivesse sido informado sobre o inquérito, o advogado de Vorcaro ajuiza uma petição na 10ª Vara, pedindo o conteúdo da investigação e citando como fonte a reportagem publicada pelo O Bastidor.
No início da tarde daquele mesmo dia, às 13h35, Vorcaro recebe um link de Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão do Banco Central, para participar de uma reunião articulada por ele e por seu chefe adjunto, Paulo Sérgio Neves de Souza, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Desde as 6h34 da manhã, Vorcaro estava em contato com Belline e Paulo Sérgio, que atuaram diversas vezes como seus conselheiros, para driblar os mecanismos de controle e fiscalização.
A reunião termina às 14h10 e depois de rumores que circularam durante a tarde, Vorcaro anunciou às 17h24 que o banco Master teria sido comprado por um consórcio liderado pela Fictor Holding, com um aporte financeiro imediato de R$ 3 bilhões. O consórcio incluiria investidores dos Emirados Árabes e, por isso, ele iria a Dubai para concluir o negócio. Nenhuma comunicação formal da transação havia sido feita ao Banco Central, embora a transação também tivesse sido comunicada por Rafael Góis, um dos sócios da Fictor.
A Fictor não tinha lastro para realizar a operação, tanto é que, três meses depois, entrou com pedido de recuperação judicial, declarando dívidas de R$ 4,3 bilhões, e o próprio Góis é hoje acusado de fraudes bancárias. Mas a notícia, amplamente divulgada, serviria de “cortina de fumaça” para Vorcaro voar para um país sem acordo de extradição judicial com o Brasil e escapar da prisão, se não tivesse sido flagrado no aeroporto pela PF por volta das 22 horas. No dia seguinte, o Banco Central deu início à liquidação do Master.
O uso da imprensa por Vorcaro se deu principalmente pela dificuldade de checar os acontecimentos na velocidade que o mercado exige — e talvez pela confiança excessiva na fonte; Vorcaro tinha contato com vários jornalistas. No caso de Escosteguy, dono de um pequeno veículo, a PF suspeita que ele tenha participado voluntariamente da trama, já que encontrou uma planilha com o pagamento de R$ 2 milhões em nome do jornalista. A notícia foi publicada pela primeira vez na coluna de Malu Gaspar, em março de 2026, e, desde então, o jornalista nega as acusações.
Desde 2024, circulavam rumores no mercado sobre a inconsistência dos papéis do Master e, em fevereiro de 2025, o Banco Central já havia barrado a compra do banco pelo Banco de Brasília. Uma situação que exigia cautela, mas que, pelo jeito, foi menor do que o contexto e o personagem exigiam.
O jornalismo só ganha com o acesso público a informações relevantes para o país; vazamentos e fontes serão quase sempre direcionados ou interessados em divulgar informações. Embora a ação de Fachin, pedindo a Mendonça a retirar do sigilo de parte dos documentos, seja um avanço, para passar a crise do STF a limpo, o ideal seria liberar logo e integralmente tudo o que não prejudicar as investigações sobre os três inquéritos com impacto eleitoral: além do Master, os relacionados aos casos “Lulinha” e Dark Horse.
Fonte: Agência Pública. Matéria original.
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