Denise Duarte: Os riscos do calor extremo são um reflexo das nossas desigualdades sociais
Por Redação • 9 de setembro de 2026 às 09:44

Professora da FAU-USP estuda o clima urbano, coordena projetos da FAPESP sobre a adaptação climática e elabora o relatório do IPCC sobre cidades
A cidade de São Paulo passou a contar no ano passado com um mapa detalhado da vulnerabilidade da população ao calor extremo, que combina condições ambientais e aspectos socioeconômicos para identificar as áreas de maior risco.
O mapa foi produzido por Denise Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP), com a pesquisadora Luiza Muñoz, que desenvolveu o trabalho em seu doutorado na FAU-USP, e o professor Rohinton Emmanuel, da Universidade de Glasgow, na Escócia. Os principais resultados foram publicados em setembro de 2025 na revista Urban Climate.
Os pesquisadores cruzaram imagens de satélite e indicadores ambientais com características socioeconômicas, como renda, idade e condições de moradia. Dados do Censo 2022 permitiram analisar cada um dos 27.592 setores censitários em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide São Paulo.
A conclusão é de que a vulnerabilidade ao calor extremo é mais alta em áreas periféricas da capital, com maior densidade populacional e moradores de menor renda. “Essa é a população mais afetada, aquela que pode morrer por causa do calor”, afirma Duarte.
Nesta entrevista, ela discute estratégias para reduzir os riscos das ondas de calor e defende que evidências como as reunidas no mapa orientem as prioridades das políticas de adaptação às mudanças climáticas.
A pesquisadora coordena projetos financiados pela FAPESP sobre resiliência e adaptação das cidades, com foco em soluções baseadas na natureza, e integra como autora principal a elaboração do Relatório Especial sobre Mudança do Clima e Cidades (SRCities), do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).
Como o mapa que vocês criaram se diferencia de outros levantamentos similares?
Ao cruzar os dados ambientais com as informações socioeconômicas em cada um dos setores censitários da cidade de São Paulo, conseguimos um refinamento maior. Outros levantamentos são mais genéricos, por grandes regiões, por exemplo. Com os dados do Censo, é possível chegar a uma escala mais detalhada para fazer simulações sobre efeitos das mudanças climáticas e das políticas adotadas para enfrentá-las.
Como trabalhamos com dados abertos, o mapa pode ser atualizado a qualquer momento, se surgirem informações novas, ou quando houver um novo Censo. Nossa metodologia também está disponível, e outras cidades podem reproduzi-la para criar seus próprios mapas de risco.
O que o mapa de São Paulo revela?
Constatamos que os riscos são um reflexo das nossas desigualdades. Pessoas que vivem em áreas periféricas, de maior densidade populacional, como as favelas, estão expostas a riscos maiores do que os que afetam moradores de outras regiões da cidade. Isso reflete não só as condições de moradia, mas também outros aspectos econômicos, como a renda das pessoas.
Em países europeus, onde as desigualdades são menores, a idade é o fator que mais influi na vulnerabilidade das pessoas. Em São Paulo, não, porque a maioria dos idosos vive em bairros mais centrais, em condições mais favoráveis para se adaptar aos riscos criados por ondas de calor. Nas favelas, onde o risco é maior, a população é mais jovem e há muitas crianças.
A proximidade de parques e áreas verdes ajuda a reduzir os riscos, mas nosso mapa mostra que nem sempre isso ocorre quando consideramos outros fatores. Na periferia, muitas pessoas vivem a quilômetros de distância do parque mais próximo. Muitos parques têm poucas árvores e pouca sombra, além de infraestrutura deficiente para receber a população.

Alexssandro Josias /ShutterstockRegião do Jardim Colombo, comunidade da Zona Sul de São Paulo vizinha a Paraisópolis, da qual é separada pela avenida Giovanni Gronchi. O adensamento populacional e a escassez de vegetação aumentam o desafio de adaptar essas e outras áreas às temperaturas mais altasAlexssandro Josias /Shutterstock
De que forma o poder público tem respondido a essas evidências?
O mapa pode ajudar a definir prioridades, e já expusemos nosso trabalho a integrantes da administração municipal algumas vezes. Em 2023, quando tivemos ondas de calor muito fortes, a prefeitura começou a executar planos de emergência, com a Operação Altas Temperaturas, oferecendo água, frutas e sombra em tendas erguidas em alguns pontos da cidade. Essas ações nos parecem insuficientes.
Com os dados do mapa, podemos ter ações estruturantes para adaptação ao calor extremo. Poderíamos criar verdadeiros oásis urbanos ao longo dos eixos de mobilidade, aproveitando a estrutura de terminais de ônibus e metrô, escolas e centros esportivos como pontos de apoio para ampliar o alcance desse tipo de ação emergencial.
Os moradores da periferia passam horas por dia se deslocando no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor, nas ruas, sem abrigo. É um formigueiro humano sujeito aos riscos permanentemente. Uma estratégia como essa poderia multiplicar os pontos de acolhimento nos períodos de calor mais intenso.
O que mais poderia ser feito?
Temos de buscar uma estratégia compatível com nossa realidade. Na Europa, estão usando bibliotecas, centros comunitários e outros prédios com ar-condicionado para criar uma rede de refúgios urbanos. Nós não temos tantas bibliotecas como eles, mas temos muitas escolas e centros esportivos que poderiam ser usados como abrigos durante uma onda de calor extremo.
A saída para a adaptação às mudanças no clima não pode depender apenas de aparelhos de ar-condicionado. Precisamos aproveitar estruturas já existentes e transformá-las em postos onde as pessoas possam se refrescar, se hidratar e receber atendimento se passarem mal.
A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e campos de golfe, inacessíveis à população. A maioria não tem vegetação adequada nem estrutura para receber a população. Nosso mapa mostra isso com clareza, e como o plantio de árvores também é desigual.
O uso de aparelhos de ar condicionado tem crescido em ônibus, trens e edifícios comerciais e residenciais. Por que não é suficiente?
Eles obviamente são essenciais em alguns lugares, como hospitais e escolas. Mas não dá para simplesmente “ar-condicionar” uma cidade como São Paulo. Imagine o impacto disso no consumo de energia. O ar-condicionado pode ser parte da solução, mas há muito a fazer com condicionamento passivo, vegetação e outras soluções baseadas na natureza.
Nem todos os ônibus têm ar-condicionado, e mesmo os que têm nem sempre estão com a manutenção em dia. A superlotação em longos trajetos e a precariedade dos pontos de ônibus também aumentam a exposição das pessoas durante uma onda de calor. Ainda temos em São Paulo pontos de ônibus cobertos com vidros, sem sombra, o que é um absurdo.
Alguns edifícios de escritórios precisam ser evacuados se o ar-condicionado não funcionar, ou se houver um apagão. Eles não têm um plano B de operação, porque a fachada é inteira de vidro e as janelas são seladas. São como caixas de vidro fechadas, que absorvem a radiação solar e aprisionam o calor dentro. Não dá para imaginar que essa seja a única saída.
Uma ferramenta construída coletivamente para fortalecer o enfrentamento da crise climática e reduzir os riscos junto à comunidade. O plano faz parte de um conjunto de 12 projetos que contribuíram para o desenho de uma política pública inovadora, formulada pelo Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades.
Faltam pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas na periferia?
Participei de um grupo de pesquisadores que desenvolveu um plano de adaptação para o Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis. Fizemos primeiro uma revisão da literatura e depois um levantamento de riscos, problemas e soluções, a partir de entrevistas e encontros com pessoas da comunidade, e depois apresentamos o plano à prefeitura. O projeto teve apoio dos ministérios das Cidades e da Saúde.
Uma das coisas que verificamos é que, para assentamentos informais como esse, há muitos estudos sobre chuvas, enchentes e deslizamentos, mas muito pouco sobre o calor. Entre os moradores, os riscos associados ao calor extremo parecem ser menos percebidos do que os causados pelas chuvas. Eles têm consciência da falta de ventilação da casa nos dias mais quentes, mas enchentes e deslizamentos são ameaças mais evidentes para eles. Talvez isso mude com a repercussão de eventos como a onda de calor que atingiu os europeus neste ano.
Em São Paulo, há uma iniciativa notável da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, o programa Sampa Adapta, em cooperação técnica com o programa de pós-graduação em meteorologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da USP. A secretaria conseguiu recursos da Vital Strategies, organização internacional que apoia políticas na área de saúde, e adquiriu 25 sensores de temperatura e umidade, que instalamos em cinco bairros da cidade. Moradores das próprias comunidades receberam alguns dos instrumentos e ficaram responsáveis por cuidar deles após a instalação. Com os sensores, teremos medições locais de temperatura e umidade em áreas vulneráveis.
Existem dados suficientes para construir mapas de risco em outras cidades brasileiras?
Em São Paulo, temos uma vantagem, que é o GeoSampa, plataforma que reúne grande quantidade de dados georreferenciados. É graças a ela que podemos fazer cruzamentos como os que permitiram construir o mapa de riscos. Outras capitais, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, também têm mapas digitais, mas não dispõem da mesma quantidade de dados em uma única plataforma.
Os moradores da periferia passam horas no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor nas ruas. É um formigueiro humano exposto aos riscos permanentemente
Há exemplos de políticas de adaptação climática eficazes em outras capitais brasileiras?
O Rio de Janeiro adotou normas para lidar com situações de calor extremo. Na esteira do que ocorreu durante o show de Taylor Swift, em 2023, quando uma garota passou mal e faleceu em decorrência do calor excessivo, foi aprovada a lei estadual 10.557/24, que obriga promotores de eventos a fornecer água gratuitamente aos espectadores. E a prefeitura adotou um protocolo a ser seguido se a temperatura ultrapassar certos limites, com um sistema de alertas, fornecimento de água e outras medidas. Há restrições para eventos e atividades ao ar livre se temperaturas acima de 40 °C forem registradas por três dias seguidos.
Sua formação passou pela engenharia, pela música e pela arquitetura. Como esse percurso a levou ao estudo do clima urbano?
Sou mato-grossense, de Cuiabá. Não havia curso de arquitetura no estado quando entrei na faculdade, então fiz engenharia civil e, assim que terminei, fui para a Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, que tinha um departamento de arquitetura. Também cursei música, por influência da minha mãe, que é pianista. Eu tocava piano, mas parei há décadas.
A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e campos de golfe inacessíveis à população
Durante o mestrado em São Carlos (SP), fiz as disciplinas de arquitetura que não tive na graduação e estudei conforto ambiental em edifícios construídos em Cuiabá. No doutorado, na FAU-USP, examinei como diferentes formas de ocupação do solo afetam os microclimas urbanos. Como é um tema interdisciplinar, fiquei mais próxima na USP de outras áreas importantes para estudá-lo, como a meteorologia e a geografia.
27.592 setores censitários de São Paulo para construir o mapa de risco ao calor extremo
Segundo protocolo da prefeitura 40 °C por 3 dias seguidos é o limite que aciona restrições a eventos ao ar livre no Rio de Janeiro
Por que escolheu a questão climática como foco de pesquisa?
Em 2010, fui convidada a participar de um Projeto Temático da FAPESP, multidisciplinar, sobre o impacto das mudanças climáticas. Meu grupo, coordenado por Tercio Ambrizzi, do IAG, analisou o conforto térmico dos idosos e sugeriu mudanças arquitetônicas que os ajudassem a enfrentar o calor. Quando comecei a estudar os relatórios do IPCC, percebi a gravidade do problema.
Decidi que trabalharia para essa causa no resto da minha carreira acadêmica. Eu me dei conta de que a arquitetura e o urbanismo tinham uma contribuição importante a dar e passei a direcionar meus projetos sobre microclimas urbanos, vegetação e adensamento para esse campo interdisciplinar.
Os cursos de arquitetura têm incorporado esse esforço interdisciplinar?
Na pós-graduação da FAU-USP, atuo na área de tecnologia da arquitetura. Temos três disciplinas voltadas para as questões climáticas. A mais antiga trata de conforto ambiental em ruas, calçadas e outros espaços abertos e foi reformulada com o tempo. Criei mais duas, com meu colega Leonardo Monteiro. Uma amplia a escala para olhar as cidades como um todo. Na outra, estudamos o impacto nos edifícios — não só da crise climática, mas também da crise energética e da pandemia de Covid-19.
Essas disciplinas têm atraído alunos de outras formações. Temos uma interação bastante forte com pesquisadores das ciências biológicas, da saúde pública, da engenharia e da meteorologia. Não tem sentido restringir o estudo desses temas aos aspectos arquitetônicos e urbanísticos, sem parcerias com as outras áreas. Temos levado isso à graduação também.
As novas construções estão sendo projetadas para enfrentar um cenário de temperaturas mais elevadas?
Sabe os folhetos que distribuem nas ruas quando lançam novos imóveis? São todos iguais, basicamente a mesma planta, porque os códigos municipais não regulam nada, e o mercado imobiliário dita as regras. Não há preocupação com questões térmicas e adaptação. Estamos incentivando a construção de caixas de vidro, com varandas falsas, áreas reservadas para condensadoras de ar-condicionado e janelas fechadas. Nunca vi plantas tão ruins como agora.
Fonte: Revista Pesquisa FAPESP. Matéria original.
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