Emergência climática: o que o Brasil precisa fazer para enfrentar os impactos esperados do El Niño que já começou
Por Redação • 7 de setembro de 2026 às 10:45

A situação do El Niño 2026-2027 mudou rapidamente nos últimos meses. As informações mais recentes, de agosto de 2026, indicam um cenário mais preocupante do que o previsto no início do ano. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO), o El Niño está oficialmente estabelecido e em fase de intensificação, já exercendo forte influência sobre os padrões de temperatura e de precipitação na América do Sul e em outras regiões do mundo durante agosto–outubro.
O aquecimento do Oceano Pacífico equatorial central e leste está acompanhado por mudanças na circulação atmosférica, indicando que não se trata apenas de uma anomalia oceânica: as anomalias de temperatura sobre o Oceano Pacífico Central estão acopladas aos ventos tanto nos níveis altos quanto na superfície da atmosfera.
Desta forma, já se registram chuvas superiores à normalidade na Região Sul do Brasil, decorrentes da maior presença de sistemas frontais (que são zonas de transição onde duas massas de ar com temperaturas, umidades e densidades diferentes se encontram), e precipitações deficientes no noroeste da Amazônia.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais referências mundiais no diagnóstico e prognóstico do fenômeno, elevou a probabilidade de um El Niño “muito forte” no período de outubro–dezembro de 2026 para mais de 90%.
No Brasil, nós, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Riscos de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) já apontávamos, desde julho, que o fenômeno deveria se intensificar durante o segundo semestre, com elevada probabilidade de intensidade muito forte na primavera/início do verão. Publicamos inclusive um texto sobre isso aqui no The Conversation Brasil.
Leia mais: O que é evidência científica e o que é especulação sobre o El Niño que vem por aí
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Efeitos em setores diversos
No presente momento, o risco não é apenas meteorológico, mas também começa a afetar ao mesmo tempo setores estratégicos que podem ser severamente impactados, como agricultura, geração de energia, rios, logística, incêndios de vegetação, saúde e segurança alimentar.
O Cemaden/MCTI destaca especificamente:
maior risco de chuvas extremas, com aumento do risco de inundações, enchentes e deslizamentos de terra na região Sul;
agravamento da seca e maior risco de incêndios de vegetação (queimadas) nas regiões Norte e Nordeste;
aumento do risco de calor e de baixa umidade do ar no Centro-Oeste.
Segundo estudo conduzido aqui no Cemaden, a partir da análise de série histórica de registros de temperaturas em anos de El Niño, o calor deve impactar todas as regiões do Brasil. Em 2026-2027, o fenômeno pode superar os registros dos eventos de El Niño de 2015-2016 e de 2023-2024, quando foram observadas sete e nove ondas de calor, respectivamente.
Planos de preparação e respostas
A partir de informações técnicas produzidas pelo nosso Centro, pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), pela Defesa Civil Nacional e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o governo federal investiu em planejamento que contempla medidas provisórias que subsidiam a identificação de áreas com maior exposição a riscos e a definição de medidas de preparação e resposta, em articulação com estados e municípios.
No planejamento, estão previstos recursos no montante de R$ 1,335 bilhão para ações de preparação e reposta a possíveis impactos de eventos extremos, em especial para ações de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais. Cabe destacar que o combate a incêndios não se restringe somente a suplementos para brigadas de combate ao fogo, mas faz-se necessário ampliar as redes de monitoramento de riscos de queimadas.
No setor de saúde, o Sistema Único de Saúde deve priorizar a disponibilização de recursos e kits emergenciais de assistência farmacêutica/hospitalar e organização de serviços.
No setor agrícola, atenção e cautela devem ser priorizadas pelos produtores de soja, principal commodity agrícola do Brasil, uma vez que os riscos são distintos entre as várias regiões produtoras e, portanto, torna-se relevante adotar diferentes práticas agrícolas com vistas a diminuir os efeitos do fenômeno.
Especificamente para a Região Sul do Brasil, a Embrapa elaborou Nota Técnica com ações para mitigação dos efeitos do El Niño 2026-2027 na agricultura. Mas vale lembrar que os efeitos do El Niño não se restringem ao campo, e se estendem também por toda a cadeia de suprimentos, como armazenamento, transporte e comercialização.
Como o El Niño tende a reduzir a disponibilidade de geração de energia na Região Norte e, concomitantemente, em razão do aumento de temperatura, a aumentar a demanda por eletricidade, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) adotou decisão de acrescentar 1,8 gigawatt (GW) de energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN), a partir de 1o de setembro.
Entre os impactos do El Niño no abastecimento de água, pode haver aumento do consumo nas regiões Sudeste e Centro Oeste, em razão de secas e temperaturas mais altas.
Recursos para programas de formação de estoques públicos e aquisição de alimentos, executados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foram previstas no âmbito de Medida Provisória (MP no 1384, publicada no DOU em 12 de agosto de 2026). Esses recursos se destinam a garantir estoques de diversos produtos básicos, como por exemplo o milho do programa de Venda em Balcão (ProVB) e do arroz. O objetivo é mitigar eventuais perdas e prejuízos em decorrência dos impactos do El Niño e garantir abastecimento e segurança alimentar.
Participação de todos
Lembrando as lições aprendidas com eventos anteriores, sabemos que as ações de prevenção, preparação e resposta aos possíveis impactos climáticos do El Niño 2026-2027 devem contemplar todas as esferas de governo, mas não se restrigem soente a elas. Precisam alcançar também a sociedade.
Por isso, a Secretaria-Geral da Presidência da República, tem conduzido diálogos regionais como parte do ciclo de interlocução entre o governo federal e a sociedade civil organizada. Esses debates estão sendo realizados em etapas virtuais e presenciais.
Essa iniciativa se alinha à necessidade de divulgar informações consolidadas sobre preparação, prevenção e respostas às emergências climáticas, regionalizar a discussão dos efeitos do El Niño e fortalecer a participação social na construção de respostas mais adequadas aos diferentes territórios.
Nesse contexto, o Cemaden/MCTI, um dos órgãos integrantes da iniciativa, tem priorizado a apresentação do panorama técnico-científico mais atualizado do El Niño e seus impactos climáticos regionalizados, inclusive com vistas a apoiar a elaboração de sínteses voltadas à convivência com as consequências do fenômeno e das mudanças climáticas. Além do Centro, outros órgãos/ministérios têm contribuído para os diálogos.
Face às esperadas consequências que o El Niño muito forte previsto pode causar, tornou-se fundamental estabelecer planos de preparação e respostas, com medidas que subsidiem os vários setores, para minimizar prejuízos econômicos, sociais, em infraestruturas e meio ambiente, assim como estratégias de comunicação baseada em informações científicas validadas e atualizadas.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.
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