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Chatbot criado por pesquisadoras busca ampliar apoio à amamentação

Por Redação • 10 de setembro de 2026 às 02:50

Chatbot criado por pesquisadoras busca ampliar apoio à amamentação
Ferramenta desenvolvida para mães e puérperas teve alta aceitação entre profissionais de saúde e participantes de estudo feito na cidade de Campos, no Rio de Janeiro. Imagem: Magnific., CC BY

Quanto você pagaria por uma substância capaz de reduzir o risco de sobrepeso, diabetes tipo 2, diversos tipos de cânceres e várias outras doenças na infância e na vida adulta? E além disso, favorecer o desenvolvimento cognitivo e ainda ser sustentável? Talvez você se surpreenda, mas estamos falando do aleitamento materno.

Tão benéfica para a saúde de mães e bebês, a amamentação pode ser favorecida pelo acesso a informação confiável e suporte adequado. Foi pensando nisso que desenvolvemos um chatbot de WhatsApp para auxiliar puérperas e mães atendidas pelo Banco de Leite Humano (BLH) do Hospital Plantadores de Cana (HPC), em Campos dos Goytacazes, RJ.

Os chatbots são sistemas de processo de linguagem natural capazes de simular conversas com usuários. Na área da saúde, essas ferramentas vêm sendo utilizadas para oferecer informações e orientações personalizadas em tempo real e de forma acessível, complementando outras formas de atendimento.

A motivação para desenvolver o Nina Chatbot nasceu da minha trajetória como enfermeira e da experiência acumulada na assistência materno-infantil e no Banco de Leite Humano do HPC. Ao longo desse trabalho, acompanhei de perto as dúvidas, inseguranças e dificuldades enfrentadas por mulheres durante a amamentação, especialmente pelas mães de recém-nascidos internados em UTIs neonatais.

Percebi que muitas dessas necessidades não surgiam apenas durante o atendimento com um profissional de saúde. Elas também apareciam quando a mãe estava sozinha, em casa, tentando ordenhar o leite, manter a produção ou lidar com alguma dificuldade na amamentação.

Essa vivência me levou a uma pergunta: como poderíamos ampliar o cuidado para além do momento presencial, oferecendo às mães informações confiáveis justamente quando surgissem suas dúvidas? Foi a partir dessa inquietação, somada à minha formação no Mestrado Profissional em Telessaúde e Saúde Digital da UERJ, que surgiu a ideia de desenvolver o Nina Chatbot.

A proposta não é substituir o profissional de saúde, mas usar a tecnologia para ampliar o acesso à informação, fortalecer a educação em saúde e oferecer um suporte complementar às mães. A ferramenta foi projetada para atender principalmente as mães de bebês internados em UTIs neonatais e puérperas assistidas por bancos de leite humano. Ela combina mensagens de texto e vídeos para facilitar a adesão à amamentação, promover cuidados com a saúde da lactante, além de incentivar a doação de leite humano.

Participação de profissionais e usuárias

O desenvolvimento da ferramenta envolveu diferentes etapas. Desde o levantamento de informações sobre o uso de tecnologias por profissionais de saúde, passando pela investigação do perfil das usuárias e até suas percepções sobre a ferramenta.

O nome Nina foi escolhido em homenagem à poetisa Nina Arueira, uma importante personagem da história de Campos dos Goytacazes. A ilustração foi baseada em uma fotografia de uma doadora e ex-funcionária do Banco de Leite Humano do HPC.

Ilustração do Nina Chatbot inspirada em uma doadora e ex-funcionária do Banco de Leite Humano do Hospital Plantadores de Cana.

A ferramenta foi registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e avaliada através de um questionário eletrônico baseado no Modelo de Aceitação de Tecnologia (Technology Acceptance Model – TAM). O modelo permite evidenciar, entre outros aspectos, a percepção dos usuários sobre a utilidade e a facilidade de uso da tecnologia.

Participaram dessa etapa 46 profissionais de saúde envolvidos na assistência ao aleitamento materno. Entre eles, 47,9% eram profissionais de Enfermagem e 14,6%, de Medicina. Quase metade (47,9%) tinha mais de dez anos de formação.

Três em cada quatro desses profissionais (75%) relataram identificar dificuldades relacionadas à amamentação durante o atendimento. Em relação à anquiloglossia, condição conhecida popularmente como “língua presa”, 58,3% informaram que não realizavam ou não acompanhavam a avaliação por meio do teste da linguinha.

Eles tinham acesso bastante amplo às tecnologias digitais. 93,8% tinham celular próprio e 95,8% relataram ter acesso à internet.

Na avaliação do Nina Chatbot, as médias obtidas nas dimensões analisadas pelo modelo TAM ficaram entre 4,89 e 4,95, em uma escala de 1 a 5. Os resultados indicam uma percepção bastante positiva dos profissionais sobre a utilidade da ferramenta e sua facilidade de uso.

Esses resultados mostram uma elevada aceitação do aplicativo, com a percepção de utilidade do chatbot como recurso de apoio à orientação às mães. A predominância de profissionais com experiência na assistência materno-infantil e a identificação frequente de dificuldades relacionadas ao aleitamento materno reforçam a importância de ferramentas que possam complementar o suporte educativo oferecido no contexto assistencial.

Avaliação das mães

Também avaliamos a percepção das próprias usuárias. Participaram dessa etapa 31 mães, a maioria delas jovens: 58,1% tinham entre 18 e 29 anos. Quanto à escolaridade, 38,7% haviam concluído o ensino médio e a mesma proporção tinha ensino superior completo. Pouco mais da metade (51,6%) relatou ter apenas um filho.

Assim como entre os profissionais, a avaliação das mães foi bastante positiva. As médias obtidas nas dimensões do modelo TAM variaram de 4,77 a 4,89, também em uma escala de 1 a 5. Os resultados indicam que as participantes consideraram a ferramenta útil e de fácil utilização.

A análise conjunta dos dados permitiu observar como características das participantes, experiência profissional e acesso às tecnologias digitais se relacionam com a percepção sobre o Nina Chatbot. Entre as mães, por exemplo, a predominância de mulheres jovens pode contribuir para a familiaridade com dispositivos móveis e plataformas digitais de comunicação. No entanto, essa característica não permite concluir, isoladamente, que a idade determine a aceitação da ferramenta.

De forma geral, os resultados indicam que o Nina Chatbot tem potencial para atuar como ferramenta digital de apoio à promoção do aleitamento materno e na educação em saúde.

Tecnologia como complemento ao cuidado

Uma das possibilidades oferecidas por tecnologias conversacionais é justamente ampliar o acesso a informações confiáveis fora dos momentos tradicionais de atendimento. No caso da amamentação, isso pode ser particularmente importante, já que muitas dúvidas e dificuldades surgem no cotidiano, quando a mulher não está diante de um profissional de saúde.

Também é importante considerar os limites do nosso estudo. Avaliamos principalmente a aceitação da tecnologia por profissionais e mães, e não seu impacto direto sobre indicadores de amamentação ou outros desfechos clínicos. Por isso, os resultados não permitem afirmar que o uso do Nina Chatbot aumente as taxas de aleitamento materno ou produza benefícios clínicos.

O futuro dessa pesquisa já está em andamento. O projeto está em pleno funcionamento no HPC e a ferramenta continua sendo avaliada. Ainda queremos saber como ela pode contribuir para melhorar os indicadores relacionados ao aleitamento e à doação de leite humano. Também pretendemos investigar seu funcionamento em diferentes serviços de saúde e entre públicos com diferentes níveis de acesso e familiaridade com tecnologias digitais.

QR Code disponível no Banco de Leite Humano do HPC Hospital Geral. Imagem fornecida pelas autoras.

A ferramenta é de uso gratuito e já está disponível para ser usada por qualquer pessoa pelo aplicativo WhatsApp. Basta acessar este link ou escanear o QR Code no site do HPC. Ela não pretende substituir a assistência profissional, pois algumas situações exigem avaliação individualizada e intervenção de uma equipe de saúde. Mas esperamos que essa fonte de informação qualificada seja muito útil para oferecer às mães uma fonte importante de apoio à amamentação.


A divulgação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).

The Conversation

Maria Isabel de Castro de Souza é Cientista do Nosso Estado Faperj e Procientista da UERJ.

Fabiana da Silva Dutra Passos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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