Paradoxo da biodiversidade: por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos
Por Redação • 10 de setembro de 2026 às 02:21

O Brasil vive um paradoxo. É uma das maiores potências mundiais em biodiversidade. O país possui uma longa tradição de uso de plantas medicinais. E ainda conta com uma comunidade científica capaz de produzir conhecimento de qualidade internacional. Mas essa combinação ainda não se transformou em patentes, medicamentos inovadores e produtos com valor agregado para a sociedade.
A nossa biodiversidade precisa ser encarada não apenas como patrimônio ambiental, mas também como infraestrutura estratégica para Ciência, tecnologia, saúde. E também para o desenvolvimento de produtos inovadores na área da bioeconomia.
Isso não significa transformar os ecossistemas em simples fontes de matérias-primas. Por meio de utilização sustentável, precisamos gerar conhecimento, produtos de alto valor agregado e benefícios econômicos para a sociedade. E também devemos incluir as comunidades detentoras de conhecimentos tradicionais.
O Brasil ainda reúne poucos exemplos de sucesso dessa transformação. O caso mais conhecido é o captopril®, medicamento hoje muito usado contra a hipertensão arterial. Seu desenvolvimento teve origem nos estudos pioneiros do professor Sérgio Henrique Ferreira, que atuava na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com o uso do veneno da jararaca Bothrops jararaca, uma cobra encontrada em diversas regiões do país. Seus estudos contribuíram para compreensão dos mecanismos envolvidos na hipertensão e para desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora de angiotensina.
Outros exemplos incluem fitoterápicos desenvolvidos a partir de plantas medicinais. Como o anti-inflamatório Acheflan®, produzido com as folhas da Cordia verbenacea, o xarope contra tosse Melagrião®, baseado na Mikania glomerata, e o calmante Sintocalmy®, à base de Passiflora incarnata.
Entre 20 fitoterápicos registrados na Anvisa analisados pela nossa equipe em 2016 e 2026, esses três seguem sendo os únicos desenvolvidos no país. Os demais são oriundos de plantas importadas, principalmente da Europa e da Ásia.
Os estudos pré-clínicos para o desenvolvimento desses três medicamentos naturais foram desenvolvidos pelo nosso grupo. A trajetória bem sucedida deles demonstra que é possível transformar conhecimento sobre plantas medicinais em produtos comercialmente disponíveis, com provas cientificas de eficácia e segurança. Ainda assim, eles permanecem como exceções. Uma minoria diante da dimensão da biodiversidade brasileira e do volume de pesquisas realizadas no país.
E o marco regulatório brasileiro para acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado faz parte desse complexo sistema.
A Lei nº 13.123/2015 estabeleceu regras para acesso ao patrimônio genético. Além disso, foram estabelecidas regras sobre conhecimento tradicional associado e exploração econômica de produtos derivados. E isso inclui mecanismos de repartição de benefícios.
O grande desafio, em minha opinião, é conciliar proteção da biodiversidade, respeito aos direitos das comunidades e condições favoráveis à pesquisa e à inovação.
Ensinamentos chineses e indianos
Um artigo publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine destaca a importância de integrar diferentes evidências. Isso inclui ensaios clínicos, estudos de efetividade comparativa e dados do mundo real. E mais: ferramentas como inteligência artificial, genômica, proteômica e análise de bases de dados para avaliar as terapias baseadas em plantas.
Essas abordagens podem revelar interações complexas e padrões difíceis de identificar pelos métodos convencionais no estudo de terapias da medicina tradicional.
As experiências chinesas e indianas nos mostram que a inovação em medicamentos exige uma estratégia integrada e de longo prazo. E é importante valorizar a transformação do conhecimento tradicional em produtos modernos.
E adotar estratégias capazes de conectar proteção da biodiversidade, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, propriedade intelectual, regulação, indústria e financiamento.
Há muito tempo, a China compreendeu que transformar conhecimento tradicional em inovação exige muito mais do que pesquisas acadêmicas isoladas.
Em março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado da China publicou um documento. Nele, estabelece uma política de estado estratégica e abrangente. A ideia é melhorar a qualidade dos medicamentos tradicionais chineses e promover o desenvolvimento de alta qualidade da indústria.
A política começa pela própria base biológica. São medidas para proteger espécies medicinais, estabelecer bancos de dados sobre recursos, desenvolver tecnologias de cultivo e reprodução.
Além disso, busca melhorar sementes e mudas, padronizar o cultivo, controlar a qualidade. E visa ainda assegurar a rastreabilidade e o fornecimento estável das matérias-primas.
Na etapa industrial, prevê modernização das fábricas, incorporação de tecnologias digitais e inteligentes. Com isso, fortalecer as empresas para atuarem em toda a cadeia de valor.
Mais importante, estabelece uma ligação direta entre ciência, inovação e desenvolvimento industrial. E apoia pesquisa básica e aplicada, integração entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, ciência regulatória, validação em escala-piloto e industrialização.
A estratégia prioriza doenças crônicas, doenças graves complexas e multialvo e de difícil tratamento e novas doenças infecciosas. E também busca desenvolver medicamentos tradicionais com eficácia clínica comprovada.
A propriedade intelectual também ocupa lugar central. Por meio do uso integrado de patentes, marcas, indicações geográficas, proteção de variedades vegetais, segredos tecnológicos e proteção do conhecimento tradicional.
Para atingir esses objetivos são previstos instrumentos financeiros, crédito e seguros para cultivo de matérias-primas e desenvolvimento de medicamentos.
Em síntese, a China procura construir uma política de Estado que começa na proteção dos recursos biológicos e do conhecimento tradicional. Passa pela pesquisa científica e pelo desenvolvimento tecnológico. E termina em produtos regulados, protegidos por propriedade intelectual e capazes de competir internacionalmente.
Gargalos da cadeia de inovação
O contraste entre Brasil e China não deve ser comparativo sobre números ou qualidade dos pesquisadores. A questão é essencialmente sistêmica.
O Brasil possui políticas públicas relacionadas a plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006. Além de possuir universidades e institutos de pesquisa com experiência na área, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada.
O que ainda falta é integrar esses componentes em uma estratégia de longo prazo.
Política efetiva com a chinesa deveria estimular projetos desde o desenvolvimento de extratos padronizados a descoberta de moléculas ativas.
E levar os resultados encontrados até estudos pré-clínicos e clínicos, registro na Anvisa e produção industrial.
Os mecanismos de financiamento também precisam acompanhar toda essa trajetória. Não basta financiar a descoberta se não houver recursos para as etapas pré-clínica e clínica. É essencial também pensar em escalonamento, transferência de tecnologia e colocação do produto no mercado.
É igualmente necessário fortalecer a formação de recursos humanos, estimular parcerias entre academia e empresas e superar obstáculos regulatórios, tecnológicos e operacionais.
Muitas publicações, poucas patentes e inovação tecnológica
O paradoxo brasileiro aparece quando se compara a nossa riqueza biológica com a capacidade de transformá-la em inovação. Pesquisadores brasileiros estudam a biodiversidade nacional há décadas. Artigo de revisão publicado por nosso grupo mostra que nossos pesquisadores publicaram 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos 10 anos.
Apesar dessa produção expressiva, a transformação desse conhecimento em medicamentos é pequena. Estudo de revisão sobre patentes de medicamentos derivados de plantas medicinais brasileiras identificou 25 pedidos envolvendo plantas nativas entre 2003 e 2008. A maioria das invenções havia sido originada em universidades e centros de pesquisa brasileiros. Mas esses depósitos não se traduziram em produtos, em grande parte pela ausência de parcerias com a indústria.
O problema, portanto, não está na capacidade de gerar conhecimento. Mas na dificuldade de transformá-lo em propriedade intelectual, produtos regulados e tecnologias que cheguem ao mercado.
O Brasil: uma potência mundial em biodiversidade
Essa experiência deveria provocar uma reflexão profunda no Brasil. O país possui uma das maiores biodiversidades do planeta. São seis grandes biomas terrestres e extraordinária diversidade de ecossistemas costeiros e marinhos.Estimativas indicam que aproximadamente 20% das espécies conhecidas no mundo ocorrem em território brasileiro. O país possui cerca de 45 a 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos.
Essa diversidade biológica é acompanhada por uma igualmente rica diversidade cultural.Povos indígenas, comunidades tradicionais e populações rurais desenvolveram conhecimentos sobre propriedades e usos de plantas e outros organismos. Essa combinação constitui uma vantagem científica e econômica extraordinária.
Produtos naturais representam uma fonte comprovadamente importante de novos medicamentos. Estima-se que aproximadamente 35–40% dos medicamentos tenham alguma relação com produtos naturais.
O Brasil, portanto, possui elementos fundamentais para ocupar posição de liderança: biodiversidade, conhecimento tradicional e competência científica. Falta uma política de Estado.
Uma parceria estratégica com a China pode ser de grande valia para impulsionar a inovação em bioeconomia no Brasil.
João Batista Calixto recebe financiamento da Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação via Finep, CNPq, Ministério da Saúde via SECTICS e da Fundação de Apoio a Pesquisa do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.
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