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Educação: paralelos entre a moderna política finlandesa contra desinformação e o legado brasileiro de Darcy Ribeiro

Por Redação • 16 de setembro de 2026 às 08:59

Educação: paralelos entre a moderna política finlandesa contra desinformação e o legado brasileiro de Darcy Ribeiro

O que o Brasil tem em comum com a Finlândia? Recentemente participei da mesa “Educação para a Emancipação: da básica à Pós-graduação”, que integrou o ciclo “Vozes da Ciência” da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Na ocasião, apresentei o modelo finlandês como o ápice do sucesso educacional contemporâneo. Ao analisá-lo, contudo, é impossível não traçar paralelos imediatos com uma das experiências mais audaciosas da história da educação brasileira: os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), idealizados por Darcy Ribeiro e implementados por Leonel Brizola quando governou o Rio de Janeiro.

À primeira vista, pode parecer improvável comparar a Finlândia do século XXI com o Rio de Janeiro dos anos 1980. Contudo, ambas as experiências compartilham a convicção de que a educação só é plena quando é integral, equânime e centrada na dignidade humana.

Tanto na Escandinávia de hoje quanto no projeto de Darcy Ribeiro, o conceito é de que a escola não seja um mero local de transmissão de conteúdos, mas um centro de proteção social, que compreende que uma criança em situação de vulnerabilidade não aprende se estiver com fome ou doente.

No Brasil, o modelo adotado com os Cieps oferecia quatro refeições diárias, banho e atendimento médico e odontológico. Na Finlândia atual, o Estado garante nutrição, transporte e suporte psicossocial gratuito a todos. O princípio fundamental é o mesmo: o bem-estar físico é o pré-requisito indispensável para o voo intelectual.

Ambos os modelos rejeitaram a ideia de escola como um depósito de crianças. O “Brizolão”, erguido sob a arquitetura icônica de Oscar Niemeyer e o trabalho de excelência de João Filgueiras Lima (Lelé), foi desenhado para ser um palácio para o povo. O horário integral permitia que o aluno ocupasse seu tempo com esporte, cultura e lazer, subtraindo-o dos riscos sociais da rua. De forma análoga, o sistema finlandês, embora possua uma carga horária menor em sala de aula, garante que o contraturno seja preenchido com atividades que desenvolvem a autonomia e a criatividade, tratando o desenvolvimento humano como algo que extrapola — e muito — as tradicionais provas de matemática.

Na Finlândia, combate às fake news desde a educação infantil

No século XXI, contudo, os riscos sociais da rua ganharam extensões digitais avassaladoras. A Finlândia percebeu precoce e estrategicamente que a soberania de uma nação depende também da sua resiliência informacional. Conforme detalhado nos relatórios oficiais do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia, o país transformou a alfabetização midiática em uma habilidade cívica nacional, integrando o combate às fake news diretamente no currículo escolar desde a educação infantil.

Graças a essa consistência estrutural, dados consolidados pelo Media Literacy Index, publicado pelo Open Society Institute, apontam que a Finlândia se mantém historicamente no topo do ranking europeu de resiliência contra a desinformação.

Mais do que ensinar a checar notícias, os finlandeses decidiram abrir a “caixa-preta” da tecnologia para os estudantes. O modelo pedagógico aborda os algoritmos de recomendação não como ferramentas neutras, mas como engrenagens desenhadas para capturar a atenção através do engajamento emocional — explorando prioritariamente o medo e a indignação. Nas salas de aula, os jovens decodificam os conceitos de “bolhas de filtro” (filter bubbles) e “câmaras de eco”, entendendo na prática como as plataformas de redes sociais moldam ativamente o debate público.

O avanço da Inteligência Artificial Generativa elevou esse patamar de exigência cívica. O sistema educacional finlandês introduziu a vacinação digital contra as deepfakes de forma prática e lúdica. Em consonância com as metodologias de combate à mentira digital propostas pela agência independente de checagem finlandesa, os alunos assumem o papel ativo de criadores: utilizam ferramentas básicas de IA para manipular imagens, clonar vozes de colegas (em ambientes pedagógicos rigorosamente controlados) e fabricar textos falsos hiper-realistas.

A premissa é cirúrgica: ao aprenderem os bastidores da fabricação da mentira, as crianças e adolescentes desenvolvem o que os especialistas chamam de “imunidade cognitiva”. Eles deixam de ser consumidores passivos e passam a olhar para qualquer tela guiados por um ceticismo saudável: Quem lucra com esse conteúdo? Qual emoção ele tenta me causar? Onde estão as evidências físicas e científicas?

Se Darcy Ribeiro estivesse vivo, certamente veria nessa blindagem cognitiva um desdobramento natural de sua tese. Para ele, o professor era o “animador cultural”, a peça central da transformação. Na Finlândia, essa visão foi totalmente institucionalizada: a carreira docente exige mestrado e possui prestígio social e remuneração comparáveis aos de médicos e juízes. Em ambos os modelos, o docente não é um reprodutor de apostilas, mas um profissional com total autonomia para adaptar o ensino à realidade do aluno — e, hoje, essa realidade exige formar cidadãos capazes de duvidar antes de compartilhar.

No Brasil, abismo pedagógico

Esse modelo emancipatório expõe o abismo pedagógico que nos separa de retrocessos recentes, como o avanço das escolas cívico-militares no Brasil. Enquanto a experiência dos CIEPs e o exemplo finlandês apostam na liberdade de pensamento, no acolhimento social e no estímulo ao pensamento crítico para formar cidadãos autônomos, o modelo cívico-militar fundamenta-se na padronização comportamental, na disciplina ostensiva e na tutela ideológica.

Trata-se de uma contradição pedagógica gritante: é impossível preparar os jovens para os desafios complexos e analíticos do século XXI substituindo o debate de ideias e a investigação científica pela simples obediência cega e pelo controle de conduta.

Por outro lado, trazer essa revolução informacional para o Brasil contemporâneo não requer importar receitas prontas da Escandinávia, mas atualizar e expandir a essência do conceito de educação integrada para os desafios da era digital.

O momento político e econômico é propício: por meio das diretrizes do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o país prevê um aporte de R$ 23 bilhões até 2028. O plano defende abertamente o uso da IA para promover a soberania informacional e combater o impacto nocivo da desinformação em massa na sociedade.

Nossa realidade de base, contudo, carece de urgência pedagógica. Os dados mais recentes da pesquisa escancaram um descompasso tecnológico gritante: embora 53% dos gestores escolares já utilizem ferramentas de IA generativa em suas rotinas, apenas 22% das instituições de ensino contam com qualquer tipo de guia ou orientação prática para mediar o uso dessa tecnologia com os alunos. Diante desse cenário, os eixos de infraestrutura e capacitação do PBIA poderiam financiar três frentes urgentes na nossa rede pública:

  • Financiamento de Laboratórios de IA e “Clubes de Checagem” no Contraturno: Utilizando os recursos de inclusão digital e computação previstos no PBIA, o contraturno das escolas de tempo integral inspiradas nos CIEPs deve abrigar laboratórios modernos de experimentação tecnológica. Neles, estudantes atuariam em Clubes de Checagem comunitários, monitorando e desmistificando golpes digitais, discursos de ódio e fraudes de saúde (como o negacionismo vacinal) que circulam em suas próprias periferias. É a tecnologia aplicada como ferramenta freiriana de emancipação e proteção social.

  • Desenvolvimento de LLMs Nacionais voltados à Educação Cívica: Um dos pilares mais ousados do PBIA é o investimento em Modelos de Linguagem Avançados (LLMs) em português. O governo brasileiro poderia direcionar essa tecnologia pública para criar assistentes virtuais educativos e plataformas abertas de checagem para as redes de ensino. Em vez de dependermos de algoritmos opacos de Big Techs estrangeiras, teriamos uma IA nacional calibrada para ensinar estudantes a identificar vieses, preconceitos algorítmicos e desinformação científica em nossa própria língua e contexto histórico.

- Formação de Professores pelo Eixo de Capacitação do PBIA: Alinhado ao texto normativo do Referencial de IA na Educação do Ministério da Educação (MEC) — que preconiza a supervisão humana ativa e o letramento crítico em sistemas inteligentes —, é urgente criar programas de formação continuada em massa para os docentes da educação básica. Capacitar os professores para que dominem as engrenagens da IA Generativa é devolver-lhes o papel de “animadores culturais” de Darcy Ribeiro, permitindo que orientem os alunos a usar a tecnologia para a investigação científica, e não para a mera reprodução automatizada de conteúdos.

Esse esforço integrador ganharia escala monumental por meio de uma articulação direta com a ciência nacional de ponta. Universidades públicas e institutos de pesquisa poderiam fornecer subsídios científicos e notas técnicas em tempo real para as escolas, criando um cinturão de proteção social e científica indestrutível contra o negacionismo.

A diferença crucial entre o sucesso nórdico e a nossa realidade nacional não reside na pedagogia, mas na continuidade e financiamento constante. A Finlândia transformou a educação e a literacia digital em políticas de Estado inegociáveis por décadas, blindando-as de disputas partidárias e eleitorais. Já os CIEPs foram dramaticamente interrompidos por descontinuidades políticas locais e pelo estrangulamento financeiro subsequente.

O paralelo entre o pensamento de Darcy Ribeiro e o modelo nórdico prova que o Brasil já teve — e ainda tem — o “mapa da mina” para uma educação de primeiro mundo. Não nos faltou capacidade teórica; faltou-nos persistência institucional e decisão política.

Para que a nossa pós-graduação e a nossa ciência sejam soberanas, precisamos que a base seja sólida, crítica e imune à mentira. É imperativo que as lideranças políticas atuais e futuras — tanto no Governo Federal quanto nos Governos Estaduais que tomarão posse em janeiro de 2027 — resgatem, ampliem e digitalizem a essência dos CIEPs. Só assim os jovens das nossas periferias e comunidades deixarão de ser sobreviventes ou alvos de manipulações algorítmicas para se tornarem cidadãos plenos, cientistas conscientes e os verdadeiros construtores do futuro do país.

The Conversation

Renato Cordeiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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