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Grande estudo genético revela forte correlação entre DNA e traços de personalidade

Por Redação • 9 de setembro de 2026 às 10:20

Grande estudo genético revela forte correlação entre DNA e traços de personalidade
Cientistas encontraram 1.260 marcadores genéticos associados aos traços dos chamados “Big Five” da personalidade, e apontam que entre 5% e 16% das diferenças na personalidade podem ser explicadas por variantes genéticas comuns. John M Lund / Getty Images

A personalidade é algo que todos nós compartilhamos, mas as diferentes maneiras como pensamos e sentimos também nos tornam únicos.

A personalidade é relativamente estável e influencia quase todos os aspectos da vida humana, desde o desempenho acadêmico e as escolhas profissionais até os hábitos de saúde e a longevidade. Por exemplo, alguém que seja mais “responsável” pode evitar correr riscos ou o consumo de álcool e drogas.

Nosso novo estudo, publicado na revista científica Nature, relacionou a personalidade a mais de 1.200 variantes genéticas comuns, destacando seu papel central na compreensão da experiência humana.

Isso só foi possível porque 1,14 milhão de pessoas contribuíram com seu DNA e seu tempo para 46 estudos em 13 países que mediram a personalidade da mesma maneira.

Como medimos a personalidade?

Os cientistas resumem milhares de traços de personalidade em cinco fatores relativamente independentes, chamados os “Big Five (“Cinco Grandes”):

  • Extroversão – ser sociável, assertivo e enérgico

  • Amabilidade – ser compassivo, cooperativo e respeitoso

  • Conscienciosidade – ser responsável, produtivo e organizado

  • Neuroticismo – ser emocionalmente reativo, ansioso e depressivo

  • Abertura à experiência – ser curioso, imaginativo e preferir a variedade.

Talvez você já conheça sistemas de classificação de tipos de personalidade como o Myers-Briggs ou Eneagrama, que descrevem a personalidade de formas diferentes. Mas os cientistas preferem os “Big Five” porque eles descrevem a personalidade em um espectro contínuo, em vez de classificar as pessoas em tipos distintos.

Estudando a genética da personalidade

A genética foi associada pela primeira vez à personalidade por meio de estudos com gêmeos, que mostram que pessoas com laços de parentesco próximos tendem a ter personalidades mais semelhantes.

Hoje, os pesquisadores utilizam um método chamado estudo de associação do genoma completo, ou GWAS, na sigla em inglês, para identificar diferenças em marcadores genéticos ao comparar o DNA de muitas pessoas ao mesmo tempo. Neste estudo, pesquisadores de 15 países ao redor do mundo, incluindo nossa equipe do QIMR Berghofer, realizaram até cinco GWASs com seus próprios dados de pesquisa. Estávamos buscando variantes genéticas comuns associadas a cada traço de personalidade.

Em seguida, reunimos esses resultados individuais dos GWAS em uma análise combinada, liderada pelo Revived Genomics of Personality Consortium da Universidade Estadual de Michigan. Isso aumentou substancialmente nossa capacidade de identificar marcadores genéticos relacionados à personalidade.

Testes subsequentes analisaram a quais genes esses marcadores estão associados. Também queríamos saber em que partes do corpo esses genes estão ativos e como a genética da personalidade se compara a outros traços comportamentais.

O que descobrimos?

Encontramos 1.260 marcadores genéticos associados aos “Big Five”, incluindo 824 que não haviam sido identificados em estudos anteriores.

Nossos resultados apontam que entre 5% e 16% da variação na personalidade pode ser explicada por variantes genéticas comuns. Um resultado semelhante foi encontrado para a depressão grave.

Isso sugere que a genética desempenha um papel significativo na formação da personalidade. Ao mesmo tempo, uma grande proporção também é influenciada pelo nosso ambiente.

Isso, no entanto, não se deve a um ambiente familiar compartilhado. Você não tem uma personalidade semelhante à dos integrantes da sua família simplesmente porque cresceram juntos. Testamos isso comparando os resultados do GWAS de pessoas sem parentesco e de membros da família.

Se o ambiente familiar compartilhado estivesse distorcendo os resultados, esperaríamos observar diferenças entre os resultados do GWAS de pessoas sem parentesco e dos membros da família. Esse viés é observado em estudos sobre nível de escolaridade e desempenho cognitivo.

Mas não encontramos evidências disso para os “Big Five”. A personalidade parece ser distinta dessas outras tendências comportamentais.

Os marcadores genéticos associados a cada traço dos “Big Five”, exceto a amabilidade, estavam fortemente ligados a genes expressos no córtex pré-frontal do cérebro.

Essa área, localizada logo atrás da testa, é frequentemente chamada de “centro da personalidade” do cérebro. Ela é importante para a regulação emocional, a tomada de decisões e o autocontrole.

O córtex pré-frontal também está envolvido em muitos transtornos psiquiátricos, incluindo ansiedade, esquizofrenia, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno bipolar. Os “Big Five” e os transtornos psiquiátricos apresentam uma compartilhamento genético substancial, o que pode explicar por que estão consistentemente ligados à mesma região do cérebro.

Sinais genéticos sobrepostos entre traços de personalidade e de saúde mostram como a personalidade também pode afetar diretamente nossa saúde física. Por exemplo, a extroversão aumentou o risco de infecção por COVID-19. A conscienciosidade diminuiu o índice de massa corporal (IMC), reduziu a probabilidade de fumar e diminuiu a frequência de internações hospitalares.

A genética da personalidade também desempenha um papel importante na forma como as pessoas respondem a pesquisas para estudos científicos. Por exemplo, aqueles com pontuação alta em amabilidade e abertura à experiência são mais propensos a preencher questionários opcionais. Portanto, a genética da personalidade pode influenciar os resultados de estudos publicados com base em dados de pesquisas de maneiras que não são levadas em conta.

O que vem a seguir?

Esses resultados nos proporcionam uma compreensão mais profunda da genética da personalidade do que era possível no passado. Mas ainda há várias lacunas a serem exploradas no futuro.

A genética dos “Big Five” mostrou-se altamente consistente em todas as regiões geográficas, faixas etárias e medidas de personalidade nesses estudos. Mas os “Big Five” não são necessariamente a melhor síntese das diferenças de personalidade em todas as culturas e idiomas. Isso significa que nossos resultados podem não se aplicar a todas as pessoas no mundo.

A personalidade é um aspecto fundamental do ser humano. Essas descobertas científicas revolucionaram nossa compreensão dos efeitos genéticos sobre a personalidade e de como a personalidade se relaciona com muitas facetas de nossas vidas.

Com o tempo, os traços de personalidade poderão ser integrados a modelos que avaliem resultados tanto de saúde física quanto mental. Isso abrirá novas oportunidades para aprimorar a forma como categorizamos, identificamos e tratamos doenças.

The Conversation

Michelle K. Lupton recebeu financiamento por meio de uma bolsa para equipe da Iniciativa para Impulsionar a Pesquisa sobre Demência do Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (NHMRC) e de uma bolsa de liderança do NHMRC para impulsionar a pesquisa sobre demência.

Briar Wormington não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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