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Os novos alvos e possibilidades no tratamento do câncer de pulmão

Por Redação • 9 de setembro de 2026 às 10:49

Os novos alvos e possibilidades no tratamento do câncer de pulmão

O câncer de pulmão é, ainda, a principal causa de morte por câncer no mundo. Durante décadas, as opções de tratamento se limitavam basicamente à quimioterapia, à radioterapia e, em alguns casos, à cirurgia. Atualmente, o cenário é outro. A palavra-chave passou a ser personalização. Trata-se de uma prática concreta baseada em biologia molecular, inteligência de dados e escolhas terapêuticas cada vez mais refinadas.

A transformação começou com a identificação de alterações específicas em genes que ajudam a controlar o crescimento e a multiplicação das células. Entre elas estão mutações — mudanças na sequência do DNA — em genes como EGFR, BRAF, MET e HER2. Há também os rearranjos genéticos, nos quais trechos do DNA mudam de posição ou se combinam de maneira diferente, envolvendo genes como ALK, ROS1 e RET. Novas alterações moleculares relacionadas ao câncer continuam sendo identificadas.

Com esses avanços, o que antes era considerado uma única doença, tratada de forma relativamente uniforme, passou a ser compreendido como um conjunto de subdoenças definidas por suas características moleculares. Em vez de perguntar apenas qual é o estágio da doença, a medicina passou a investigar também o perfil genômico de cada tumor de pulmão.

Combinações mais inteligentes

Nos últimos anos, essa lógica foi levada a um novo patamar. Pacientes com câncer de pulmão que apresentavam mutações ativadoras no gene EGFR já se beneficiavam de inibidores de tirosina-quinase, ou TKIs (medicamentos que bloqueiam proteínas envolvidas nos sinais que estimulam o crescimento e a multiplicação das células tumorais), especialmente o osimertinibe, que se consolidou como padrão de tratamento em primeira linha. A novidade mais relevante agora é a estratégia de intensificação terapêutica desde o início.

Estudos recentes demonstraram que combinar esse medicamento com quimioterapia baseada em platina pode aumentar significativamente o tempo de controle da doença e, com um período maior de acompanhamento dos pacientes, também melhorar a sobrevida global (tempo que os pacientes permanecem vivos após o início do tratamento). Benefício semelhante tem sido observado com a combinação dos TKIs com uma nova classe de medicamentos, os anticorpos biespecíficos.

A lógica é clara: tratar de forma mais abrangente desde o início pode retardar o desenvolvimento de resistência. Isso pode ser especialmente importante em pacientes com perfil molecular de maior risco, como aqueles com coalterações genéticas associadas a um pior prognóstico a longo prazo.

Isso marca uma mudança de paradigma. Não se trata mais apenas de “usar o melhor TKI”, mas de decidir quem precisa de estratégia combinada desde a largada. A personalização passa a considerar não apenas a principal alteração genética que orienta o tratamento, mas também outras alterações presentes no tumor que podem influenciar sua evolução e a resposta aos medicamentos.

Novos alvos e possibilidades

Outro avanço importante é a consolidação de terapias direcionadas para mutações antes consideradas raras ou de difícil abordagem. Algumas dessas alterações são pouco frequentes e outras, embora conhecidas, são difíceis de atingir com medicamentos. Inibidores seletivos para KRAS G12C já fazem parte da prática clínica. Esses medicamentos não inibem a ativação do gene em si, mas bloqueiam a proteína KRAS alterada pela mutação G12C, interferindo nos sinais que favorecem o crescimento das células tumorais. Há também progressos consistentes no tratamento de pacientes com outras mutações do próprio KRAS e com alterações moleculares mais raras.

Também se observa o amadurecimento de dados em tumores com mutações menos frequentes. A ampliação do acesso ao sequenciamento de nova geração (NGS) tornou-se essencial. Em muitos centros, especialmente em serviços especializados e na rede privada, o perfil molecular amplo já é rotina no diagnóstico inicial da doença metastática. No SUS, o acesso a esses testes ainda é mais limitado e desigual.

Anticorpos biespecíficos e conjugados anticorpo-droga

A imunoterapia, estratégia que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais, revolucionou o tratamento do câncer de pulmão ao longo da última década. Mais recentemente, novas abordagens estão ampliando as possibilidades terapêuticas. Entre elas estão os anticorpos biespecíficos, capazes de reconhecer simultaneamente dois alvos, que vêm ganhando espaço em situações específicas, como tumores com alterações no gene EGFR que progridem após o uso de inibidores de tirosina-quinase. Esses agentes podem bloquear mecanismos que favorecem o tumor e, ao mesmo tempo, estimular o sistema imunológico a atacá-lo.

Paralelamente, os conjugados anticorpo-droga (ADCs) ganharam espaço. Essas moléculas combinam um anticorpo, capaz de reconhecer um alvo específico na célula tumoral, com uma substância tóxica, geralmente um agente quimioterápico. Funcionam, assim, como “mísseis guiados”, levando o medicamento diretamente às células que apresentam determinado marcador. ADCs direcionados a alvos como HER2 e TROP2 já são utilizados em fases mais avançadas da doença, com resultados promissores em grupos específicos de pacientes.

Mais uma tendência forte é o refinamento do tratamento. A medicina quer definir com mais precisão quem pode se beneficiar de cada estratégia. A imunoterapia com inibidores de PD-1 e PD-L1 (medicamentos que ajudam o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células tumorais), por exemplo, segue como base do tratamento para grande parte dos pacientes com tumores de pulmão que não apresentam mutações que possam ser alvo de terapias específicas.

Nesse sentido, ganham ainda mais relevância biomarcadores como o PD-L1 — uma proteína cuja presença no tumor pode ajudar a prever a resposta à imunoterapia. Mas outros indicadores vêm sendo estudados para tornar essa escolha ainda mais precisa. Além da quantidade de mutações presentes no tumor, os médicos querem saber as características do microambiente tumoral, isto é, das estruturas que cercam o tumor e podem influenciar seu crescimento e sua resposta ao tratamento.

O desafio da equidade

Mais uma dimensão da personalização é o diagnóstico precoce. Programas de rastreamento com tomografia de baixa dose têm mostrado impacto na detecção de tumores em estágios iniciais, quando a chance de cura é maior. A medicina também busca incorporar ferramentas de inteligência artificial para interpretar exames com maior precisão.

Além disso, a jornada do paciente tornou-se mais integrada. Em uma doença historicamente associada ao estigma e à alta mortalidade, a abordagem humanizada representa um avanço importante. Em serviços com boas condições de atendimento, o cuidado não se limita ao tumor. Avaliam-se fragilidade, comorbidades, qualidade de vida e preferências individuais.

Com todas essas inovações, o câncer de pulmão deixou de ser tratado como uma única doença. Ele é um mosaico biológico que exige leitura cuidadosa e decisões sob medida. A boa notícia é que, pela primeira vez na história, temos ferramentas suficientes para adaptar o tratamento ao paciente. Apesar disso, ainda existe muito a se desenvolver, tanto em relação à compreensão da biologia da doença e dos tratamentos quanto, sobretudo, ao acesso a toda essa personalização terapêutica.

Ao mesmo tempo, permanece o desafio de garantir que esses avanços cheguem a todos. O acesso a testes moleculares amplos, às terapias-alvo e aos novos medicamentos ainda varia entre sistemas de saúde e países. Um dos motivos é o incremento exponencial dos custos associados às novas tecnologias.

A personalização do tratamento não pode ser privilégio de poucos. A próxima fronteira talvez não seja apenas científica, mas estrutural: como transformar descobertas de ponta em cuidado real, acessível e sustentável. Esse é o grande desafio vigente.

The Conversation

Marcelo Corassa atuou como consultor e palestrante de indústrias farmacêuticas. Também participa como investigador de estudos clínicos patrocinados.

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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