Saúde: nas mãos da Majé Suzete, a sabedoria ancestral de tratamento, prevenção e cura dos Kumaruara
Por Redação • 16 de setembro de 2026 às 08:59

Nas aldeias indígenas Kumaruara do Baixo Tapajós, enquanto a liderança política é exercida pelos caciques, cacicas ou tuxauas, a liderança espiritual fica a cargo dos pajés ou majés.
Na aldeia de Solimões, uma das cinco do Território Kumaruara, essa liderança espiritual está nas mãos da Majé Suzete. Aos 78 anos, Maria Suzete Rodrigues Matos segue fazendo remédios, banhos, trabalhos de cura e partos. E tem orgulho de sua prática.
A majé vem de uma família de pessoas com dom. Ela começou cedo a fazer remédios, sob orientação da mãe. Nas aldeias, é muito marcante o uso de plantas medicinais, e diversos medicamentos são produzidos usando folhas, cascas, banhas, frutos, mel e outros ingredientes da floresta.
São remédios para gastrite, nódulos, inflamação, verminose, xarope para anemia, para garganta, pomadas, garrafada anti-inflamatória e banhos. A fabricação de medicamentos tradicionais envolve um sistema de conhecimento ancestral transmitido de forma oral, como aconteceu com a majé.
Suzete realizou seu primeiro parto aos 11 anos de idade. Seu aprendizado se deu a partir da observação do trabalho de outras pessoas e de sonhos. Ao mesmo tempo, ela diz que sempre foi muito curiosa, desde criança, e, assim, foi adquirindo e desenvolvendo seu dom ao longo do tempo.
“Foi nos meus sonhos, eu fui descobrindo. Aí eu fui aprendendo, ia fazer o trabalho e acertava. Antes de mim, gente da minha família tinha esse dom, porque os meus tios, eles puxavam desmentidura, benziam, eu puxei um pouco pro lado deles”, ela conta.
Existe o reconhecimento público do trabalho realizado por Suzete, tanto das pessoas da aldeia, que a procuram com frequência, quanto de pessoas de fora. Mas ainda é desafiador garantir o respeito às práticas e conhecimentos tradicionais de saúde e o protagonismo dos/as cuidadores/as atuantes na região e evitar a imposição do modelo biomédico em detrimento de suas formas próprias e tradicionais de cuidado.
O preconceito ainda é uma realidade, dentro e fora das aldeias. A majé Suzete, por exemplo, já foi chamada de bruxa dentro da própria casa. “Eu só trabalho pro bem. Tem pessoa aqui na aldeia que pensa outra coisa da gente, mas não é não. Agora já me respeitam aqui. Já senti preconceito”, ela conta.
Troca de conhecimentos
Majé Suzete não nega os conhecimentos da medicina ocidental. Quando percebe que a situação é complicada, ela sugere que a pessoa procure médico em Santarém, cujo acesso até a aldeia é somente fluvial, em cinco horas de barco. Mas a situação inversa também acontece: ela já tratou de pessoas cujos problemas os médicos não conseguiram resolver.
“Já veio um rapaz de Manaus se tratar comigo aqui, veio desenganado do médico. Quando esse rapaz chegou, ele não podia sentar, quando eu fui lá na casa dele, ele estava na rede. Aí eu puxei tudo. Esse menino levantou e sentou em uma cadeira fora, a mãe dele ficou me olhando: pela amor de Deus, ele não andava!”, lembra ela.
Majé Suzete segue tratando da comunidade e dos pacientes que a procuram, agora com a ajuda das filhas e de um neto. Por várias vezes ao longo das nossas conversas, ela me falou sobre seus modos de transmissão do conhecimento. “Esse conhecimento pode ser repassado”, ela explica.
Suzete ensina as novas gerações a fazer remédios. Uma filha e um dos seus netos manifestaram dom desde crianças. No caso do neto, o dom dele é diferente do dela e, atualmente, eles trabalham em parceria na cura das pessoas.
“Esse aí advinha as coisas, eu já não tenho isso, por isso que uns tem um e outros tem outro dom. O que eu faço ele não faz e o que ele faz eu não faço. Ele confia em mim, quando é alguma coisa pra remédios, banho, ele já liga pra mim e eu faço, porque aqui eu planto as plantas medicinal. Mas se eu vou rezar em uma pessoa e não pega, aí eu tenho que ligar pra ele, ele dizer porque que é, ele diz, eu faço e dá certo. É assim que nós trabalha”.
Isso porque há diversas especialidades de práticas de cura e cuidado com a saúde. Segundo o indígena e antropólogo Florêncio Vaz Filho, do povo Maytapú, os especialistas de saúde entre os indígenas podem ser assim divididos:
Pajé / Majé: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações; trata doenças feias com banhos de plantas, chá de ervas e garrafadas; é conhecedor/a das plantas medicinais, árvores e banhas de animais; tem o dom de aprender as coisas por sonho; trata picada de bichos peçonhentos como cobra e escorpião; é parteira; benze e reza; exerce o poder de respeito de todos.
Benzedor/a, rezador/a: Benze e reza em pessoas que estão com mau-olhado de bicho, crianças que estão com quebranto e panema; é conhecedor/a de orações para tratamento e cura de doenças específicas.
Rezador de rasgadura/carne trilhada e rendidura: Sabe reza específica para rendidura – quando o homem se rende por fazer muito esforço físico; costura feridas.
Puxador/a e concertador/a de osso: Conserta osso e puxa desmentidora, que é a distensão muscular, luxação ou torção.
Conhecedor/a das plantas medicinais e banhas de animais: Faz remédios caseiros – garrafadas, xarope, pomada, comprimidos com plantas naturais, cascas de árvores e banhas de animais – para doenças como diabetes, hipertensão, miomas, dores musculares, gripe, bronquite, pneumonia, inflamação, verminose e outras doenças.
Sacaca: Tem o dom de nascença para descobrir a cura para tratar pessoas; descobre as práticas de cura por intermédio de sonhos; faz tratamento com defumação ou com banhos de cheiro feitos com plantas; cura doenças do corpo e do espírito; benze e reza.
Curador/a ou curandeiro/a: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações, banhos, defumação, garrafadas para doenças feias; benze e reza.
Parteira: Acompanha mulher grávida – puxa barriga e faz partos.
A identificação e tratamento das doenças está diretamente vinculada à relação desses povos com o mundo dos encantados. As doenças costumam estar ligadas a uma desordem que ocorreu na relação entre seres humanos e seres encantados. E há pessoas que têm o dom de reorganizar essa relação.
Majé Suzete é uma dessas pessoas com dom. E ela exerce vários papeis sociais ao mesmo tempo, pois ocupa cargo de prestígio na organização social da aldeia como majé, cuida das pessoas, gera renda com produção da agricultura familiar, é uma liderança comunitária e atua na escola junto com a professora de Notório Saber, fazendo oficinas de cerâmicas e remédios caseiros.
E ela se preocupa em repassar seus conhecimentos, para ter alguém que possa substituí-la algum dia: “Eu já tô procurando uma pessoa que fique no meu lugar, como eu já achei uma filha minha, ela me acompanha nos partos que eu faço, ela já sabe mais ou menos como é. É a Silvane Cristina, essa que eu escolhi pra mim ajudar e fazer esse trabalho por mim. Outra neta que estou ensinando ela a puxar desmentidura é a Josiete. Também tem minha filha Celivalda que já puxa. Eu ensino elas a fazerem isso, porque eu não sei o dia de amanhã. Por isso que eu estou dizendo, eu sou muito feliz com esse trabalho e ajudo meus irmãos”.
Luana Kumaruara não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.
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