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Quando a câmera entra no campus: por que candidatos da direita disputam as universidades nas eleições?

Por Redação • 9 de setembro de 2026 às 11:34

Quando a câmera entra no campus: por que candidatos da direita disputam as universidades nas eleições?

Às vésperas das eleições de 2026, novas ações de políticos de direita em universidades públicas recolocaram uma pergunta: por que candidatos escolhem o confronto nos campi como agenda eleitoral?

Quando a câmera entra no campus

Em 4 de março, o vereador de São Paulo Lucas Pavanato instalou uma tenda perto da Praça do Relógio, na USP. Diante dela, colocou uma faixa com a frase “aborto é assassinato”. Câmeras e tripés registravam o que acontecia ao redor. Segundo sua assessoria, a tenda seguia “os moldes da Turning Point USA, organização fundada por Charlie Kirk para atuar entre estudantes.

Na série Prove Me Wrong (“Prove que estou errado”), conduzida por Kirk em campi norte-americanos, estudantes eram convidados a contestar suas posições. A tenda na USP reunia elementos desse formato com uma afirmação categórica, um lugar onde se esperava encontrar discordância e câmeras preparadas para registrar a reação.

Poucos dias antes, nove integrantes do MBL e pré-candidatos do Missão entraram no IFCH da Unicamp levando câmeras e latas de tinta branca. A tinta seria usada sobre grafites da parede externa da biblioteca que, segundo o instituto, continham manifestações do movimento negro. Em janeiro, na Faculdade de Direito da USP, o ex-deputado estadual Douglas Garcia e o vereador Rubinho Nunes participaram de um ato na universidade, também registrado por câmeras, que terminou em empurrões e socos.

Em comum, esses casos tiveram a participação de políticos eleitos e pré-candidatos que passaram a produzir cortes para as redes sociais como parte de uma estratégia de campanha inspiradas nas ações de Charlie Kirk. Na Turning Point USA, porém, os vídeos integravam um trabalho contínuo de identificação, treinamento e organização de estudantes conservadores. Se a câmera era apenas parte desse investimento, o que mais esses atores procuravam na universidade?

Por que a universidade interessa?

Esse interesse não começou em 2026. Entre 2016 e 2019, grupos liberais e conservadores procuraram organizar estudantes e disputar centros acadêmicos. Uma pesquisa sobre o Students For Liberty Brasil documentou treinamento, apoio material e formação de grupos universitários. Em 2018, a então deputada estadual eleita Ana Campagnolo anunciou um canal para receber gravações e denúncias contra professores. Em 2023, o projeto “Inimigos Públicos”, do MBL, percorreu universidades. No ano seguinte, o documentário Unitopia reuniu docentes e controvérsias numa narrativa sobre a “hegemonia ideológica”.

Esses antecedentes mostram que transformar a universidade em problema também é uma maneira de investir politicamente nela. Na Turning Point USA, esse interesse assumia a forma de um projeto geracional. Em Time for a Turning Point, Kirk defendia que o campus reunia jovens no momento em que começavam a formar suas posições e ainda teriam décadas de participação política pela frente. Capítulos, conferências e atividades de formação procuravam transformar afinidades conservadoras em ativistas, eleitores e lideranças duradouras.

O problema não estava apenas em organizar estudantes conservadores, mas trasformar uma cena localizada e recortada em um suposto “problema” de hegemonia. Assim, alguns estudantes tornam-se “a esquerda”, suas reações passam a comprovar a intolerância da universidade e aqueles que não entram no confronto desaparecem da narrativa. A operação reproduz, assim, aquilo que denuncia: reivindica para os conservadores o pluralismo político que retira de seus adversários.

As câmeras tampouco protegem os participantes. A violência política pode atingir candidatos, estudantes, funcionários e seguranças. O assassinato de Kirk durante um evento universitário tornou essa vulnerabilidade tragicamente evidente.

O problema ocorre, quando a violência pode ser convertida em prova de intolerância, visibilidade e autoridade eleitoral. Quando o candidato depende da reação do adversário para se apresentar como alguém capaz de enfrentá-lo, seu compromisso não está no pluralismo que reivindica, mas no rendimento político do conflito. A repetição dessa estratégia estreita o espaço de convivência e aumenta o risco de novas agressões.

O que a cena põe em movimento?

Ao circular, as cenas produzidas nas universidades brasileiras põem em movimento quatro operações:

  • Publicização. Com imagens, falas e faixas, o confronto ganha uma forma pública. O vídeo distribui papéis: alguns participantes passam a aparecer como “os esquerdistas”, enquanto o político ocupa a posição de quem aceita enfrentá-los. Seguidores, jornalistas, adversários e apoiadores prolongam o encontro em comentários e compartilhamentos. Publicizar, aqui, é transformar o ato de “enfrentar os esquerdistas” em um acontecimento que faz pessoas tomarem posição e acumular valor político à campanha.

  • Credenciamento político. A circulação transforma a intervenção em credencial eleitoral. Ao entrar no campus e agir numa situação que ajudou a produzir, o candidato adquire a autoridade de quem esteve ali e enfrentou aquilo que denuncia. A cena não demonstra que ele saiba resolver os problemas da universidade. Demonstra sua disposição para confrontar e publicizar aquilo que apresenta como problema. É essa performance que pode ser convertida em voto.

  • Convocação. Se o credenciamento apresenta o candidato como alguém que sabe o que fazer, a convocação indica quem pode agir com ele. Ao afirmar que pretende “acordar os estudantes”, Pavanato pressupõe pessoas politicamente próximas já presentes nos campi, mas dispersas ou silenciosas. A convocação oferece uma posição: reconhecer-se como coletivo, perceber a universidade como campo de disputa e tomar o candidato como referência. A cena procura, assim, converter afinidades políticas em possíveis participantes.

  • Orientação política. A orientação oferece uma gramática para reconhecer o conflito e agir. Nos vídeos, um grafitti na universidade pode representar a hegemonia de esquerda; os estudantes aparecem como esquerdistas; uma reação, como censura ou intolerância. Essas associações conectam fragmentos visíveis a categorias mais amplas e tornam a universidade legível como território em disputa. Ao mesmo tempo, oferecem um repertório de intervenção: entrar no campus, registrar a contestação, transformar a resposta em argumento político e fazer circular os cortes desse enfrentamento.

Juntas, essas operações fazem da cena mais do que um registro. Ela transforma a universidade em problema e apresenta o político como alguém capaz de enfrentá-lo. Também chama pessoas próximas e indica como a disputa pode ser conduzida. O enquadramento organiza, assim, uma relação entre a instituição, o candidato e seus públicos.

Quando a câmera vai embora, a universidade continua

O problema dessa estratégia não está na presença de conservadores ou de qualquer outra corrente nas universidades. Os campi reúnem pessoas de esquerda e de direita, feministas e antifeministas, evangélicos, católicos, pessoas LGBT+ e inúmeras combinações entre essas posições. Elas estudam, trabalham, pesquisam, disputam entidades, pegam ônibus e enfrentam problemas que raramente cabem em dois lados. Aulas, pesquisas, amizades, divergências ordinárias e formas cotidianas de convivência, por não renderem confronto ou voto, permanecem fora do enquadramento.

Essa é a força e o problema dessa estratégia. Quando a câmera vai embora, porém, a universidade continua heterogênea, contraditória e atravessada por problemas que não cabem naquele recorte. Quem pretende disputá-la precisa fazer mais do que enquadrá-la, precisa entrar nela disposto a enfrentar seus problemas, não apenas a fazer dela um problema.

The Conversation

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Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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