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É possível calcular o custo de não prevenir um acidente?

Por Redação • 8 de setembro de 2026 às 10:49

É possível calcular o custo de não prevenir um acidente?

Em 18 de janeiro de 2000, o rompimento de um oleoduto que ligava a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) ao Terminal da Ilha d’Água, na Ilha do Governador provocou o derramamento de aproximadamente 1,29 milhão de litros de óleo combustível na Baía de Guanabara, num dos três maiores acidentes ambientais já registrados na região.

A mancha se espalhou por cerca de 40 km², atingiu manguezais, praias e a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim.

Além dos danos ambientais, o acidente afetou a atividade de milhares de pescadores artesanais e deu origem a ações de indenizações pelos prejuízos provocados.

Casos como esse mostram que acidentes industriais podem gerar consequências que vão muito além do momento em que ocorrem. Mas existe uma questão menos evidente: é possível calcular, antes que um acidente aconteça, quanto vale investir para reduzir a probabilidade ou a gravidade de seus impactos?

Foi justamente essa pergunta que motivou uma pesquisa realizada por nosso grupo no Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas da PUC-Rio.

Desenvolvemos e validamos modelos matemáticos capazes de estimar o valor financeiro associado à mitigação de riscos de segurança ocupacional, ambiental e de processos no setor industrial.

A ideia é simples, embora sua aplicação seja complexa. Se uma empresa investe em uma medida preventiva, quanto esse investimento pode representar em custos evitados?

Da prevenção ao valor financeiro

Grandes operações industriais estão sujeitas a diferentes tipos de riscos. Falhas humanas, mecânicas ou tecnológicas podem provocar acidentes com consequências para trabalhadores, patrimônio, processos produtivos e meio ambiente.

Em setores como petróleo e gás, esses eventos podem ainda atingir comunidades vizinhas, recursos naturais e atividades econômicas.

A prevenção desses riscos normalmente envolve investimentos em tecnologias, equipamentos, treinamento, monitoramento, manutenção e protocolos de emergência.

Entretanto, justificar esses investimentos nem sempre é simples. Seu retorno não decorre de aumento de receita, mas de custos evitados em caso de evento não previsto.

Quando uma medida preventiva funciona, o resultado muitas vezes é um evento que não aconteceu, apesar de sua baixa probabilidade de ocorrência. Não houve acidente, interrupção da produção, dano ao patrimônio ou ao meio ambiente, ou mesmo trabalhador ferido.

Isso torna difícil avaliar, em termos financeiros, o benefício de uma decisão preventiva.

É nesse ponto que nossa pesquisa procura contribuir. Transformar a redução do risco em uma variável que possa ser incorporada à análise econômica dos investimentos.

Como chegamos aos resultados

Para desenvolver o modelo, analisamos dados de uma unidade operacional da cadeia de petróleo e gás. Esta unidade foi selecionada pela disponibilidade e qualidade das informações. Além disso, possuía métricas de custos previamente validadas pela organização.

A base reunia registros de incidentes de segurança classificados segundo sua gravidade. E mais: informações sobre localização, unidade responsável e características de cada ocorrência.

Os eventos foram agrupados conforme seus impactos sobre quatro dimensões: pessoas, patrimônio, processos e meio ambiente.

Para estimar as consequências econômicas dos acidentes, utilizamos os critérios de custos disponíveis e validados pela empresa. Como apenas os incidentes envolvendo pessoas e patrimônio possuíam parâmetros financeiros padronizados e consistentes, a análise econômica concentrou-se nessas duas categorias.

A partir desses dados, desenvolvemos e validamos duas metodologias para estimar financeiramente os efeitos das estratégias de mitigação de riscos.

Os resultados mostraram que é possível atribuir um valor econômico à redução dos riscos e incorporar essa informação aos processos de decisão sobre investimentos.

As análises de diferentes cenários também indicaram que estratégias combinadas de mitigação podem produzir resultados mais favoráveis do que medidas avaliadas isoladamente.

O que isso muda na prática?

Imagine que uma empresa precise escolher entre diferentes alternativas para reduzir o risco de acidentes. Todas podem ser tecnicamente adequadas, mas têm custos, níveis de redução de risco e impactos diferentes.

Tradicionalmente, a decisão pode considerar principalmente o investimento necessário, os requisitos regulatórios e os critérios técnicos. O modelo desenvolvido acrescenta outra informação: quanto pode ser economicamente evitado com a redução do risco.

Isso permite comparar estratégias, estabelecer prioridades e oferecer aos gestores uma informação adicional para a tomada de decisão.

A proposta não é transformar segurança em uma questão puramente financeira. Ao contrário. A intenção é mostrar que os investimentos em prevenção também possuem um valor econômico que pode ser mensurado.

Essa perspectiva pode ser especialmente relevante em setores nos quais acidentes, embora pouco frequentes, podem provocar perdas expressivas. Um evento de baixa probabilidade não significa necessariamente baixo impacto.

Um desafio que vai além do petróleo

Embora a pesquisa tenha sido desenvolvida a partir de dados da indústria de petróleo e gás, a questão é mais ampla.

Siderurgia, indústria química, geração de energia, mineração, transporte e outras atividades de grande porte também enfrentam riscos operacionais, ambientais e ocupacionais.

No Estado do Rio de Janeiro, onde convivem importantes áreas industriais e ecossistemas de grande relevância ambiental, essa discussão ganha uma dimensão particular.

A quantificação econômica não elimina a necessidade de regulamentação, fiscalização ou responsabilidade ambiental. Também não substitui as metodologias financeiras tradicionalmente utilizadas pelas empresas.

O modelo é complementar. Oferece uma forma adicional de incorporar a redução de riscos às decisões de investimento.

O que ainda falta descobrir

Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados considerando as limitações do estudo. A pesquisa foi realizada em uma única unidade operacional. Ela foi escolhida pela completude dos dados e pela disponibilidade de métricas de custos validadas pela organização.

Por isso, são necessários novos estudos em diferentes instalações e setores para verificar se os resultados podem ser generalizados.

Como extensão desta pesquisa, podemos citar a validação dos modelos em múltiplas unidades, a construção de modelos específicos para diferentes setores e o desenvolvimento de metodologias capazes de considerar a relação entre diferentes tipos de eventos e a variação dos parâmetros ao longo do tempo.

A principal contribuição da pesquisa é mostrar que existe um caminho para aproximar duas áreas que muitas vezes são tratadas separadamente: segurança e finanças.

Prevenir um acidente continuará sendo, antes de tudo, uma questão de proteger vidas, trabalhadores, comunidades e o meio ambiente. Mas, além disso, a prevenção pode ser entendida como uma decisão de investimento cujo valor econômico é possível estimar.

Essa mudança de perspectiva pode ajudar empresas e gestores a responder a uma pergunta fundamental antes que o próximo acidente aconteça: quanto vale investir hoje para evitar uma perda amanhã?

Esta pesquisa contou com o apoio do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Petrobras (Cenpes) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

The Conversation

Carlos de Lamare Bastian Pinto recebe financiamento da Faperj e CNPq.

Marcelo Guedes Pecly trabalha na PUC-Rio como pesquisador em Finanças.

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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