Próxima edição da ‘Bíblia’ da psiquiatria vai usar pela primeira vez a biologia para entender transtornos mentais
Por Redação • 8 de setembro de 2026 às 10:58


A “Bíblia” da psiquiatria clínica – o DSM, abreviação em inglês para o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais” – é um dos livros de referência mais importantes da psiquiatria em todo o mundo. Profissionais clínicos o usam para diagnosticar pacientes, e os cientistas, para orientar suas pesquisas.
Apesar de seu amplo impacto, o DSM nunca integrou a biologia em seus diagnósticos de transtornos mentais. Essa omissão deveu-se, em grande parte, ao fato de que os fundamentos biológicos dos transtornos mentais ainda eram muito preliminares para serem incluídos em um manual clínico de uso tão generalizado.
A versão mais recente do DSM – o DSM-5, lançado em 2013 – tem recebido críticas significativas de clínicos e pesquisadores, inclusive quanto ao risco de que a falta de medidas biológicas objetivas medicalize o sofrimento humano e reduza a validade dos diagnósticos psiquiátricos.
Diante disso, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) anunciou que lançará uma nova edição do DSM nos próximos anos, e um de seus principais planos é modernizar o manual por meio da introdução da biologia. Fui integrante do comitê estratégico do DSM entre maio de 2024 e agosto de 2026 e contribui para o subcomitê encarregado de integrar a neurobiologia ao manual.
A compreensão dos pesquisadores sobre a biologia dos transtornos mentais ainda está evoluindo lentamente. Por isso, meus colegas do DSM e eu decidimos adotar uma abordagem mais matizada para incorporar a neurobiologia ao diagnóstico de condições psiquiátricas.
O que são biomarcadores?
Fatores biológicos são mecanismos que podem estar envolvidos no desenvolvimento de uma doença, mas que ainda não se cristalizaram em algo que possa ser medido de forma quantificável em laboratório. Esses fatores podem ser fisiológicos, genéticos ou bioquímicos.
Em contrapartida, os marcadores biológicos — chamados de biomarcadores, para abreviar — são características que podem ser medidas objetivamente e utilizadas para avaliar um processo biológico, incluindo o grau de resposta de uma pessoa a um determinado tratamento. Os biomarcadores podem ser coletados por meio de exames de sangue, exames de imagem e outros métodos que revelam fatores associados a uma doença específica.
Os biomarcadores são amplamente utilizados na medicina. Por exemplo, os níveis de hemoglobina glicada são usados para diagnosticar e monitorar o diabetes, os níveis de colesterol para determinar o risco cardiovascular e tomografias computadorizadas para medir o tamanho de um tumor.
Por que não existem biomarcadores para doenças mentais?
Atualmente, não há biomarcadores cientificamente válidos para qualquer condição psiquiátrica, com exceção de certas proteínas utilizadas para diagnosticar a doença de Alzheimer. A principal razão para esse abismo entre a psiquiatria e o restante da medicina é que o conhecimento sobre a base biológica dos transtornos mentais está muito atrás do conhecimento sobre outras doenças.
As alterações biológicas subjacentes às doenças mentais são sutis, e as tecnologias atuais não conseguem detectá-las facilmente. Doenças mentais graves são, em sua essência, distúrbios cerebrais com componentes psicológicos e sociais significativos. Ter histórico familiar de doença mental e trauma são os principais fatores de risco para transtornos mentais graves. Essas fortes influências ambientais tornam difícil separar com precisão as influências que os fatores biológicos e as considerações psicossociais exercem sobre as doenças mentais.
Além disso, os pesquisadores conceituam os transtornos psiquiátricos não como doenças distintas, mas como síndromes comportamentais: um conjunto de sinais e sintomas que se sobrepõem. Por exemplo, transtornos de ansiedade e de humor apresentam sinais e sintomas que se sobrepõem, e os pacientes frequentemente atendem aos critérios para ambos os tipos de transtornos simultaneamente. O mesmo se aplica à esquizofrenia e ao transtorno bipolar com psicose.
Caracterizar cada um desses transtornos como condições distintas no DSM é uma simplificação excessiva, pois eles se agrupam devido a fatores genéticos e ambientais comuns. Além disso, condições como o transtorno depressivo maior e a esquizofrenia provavelmente apresentam vários subgrupos que, superficialmente, se assemelham, mas se desenvolvem por meio de mecanismos e vias diferentes. Encontrar um único biomarcador que reflita múltiplos processos ao mesmo tempo não é realista.
As síndromes existem há muito tempo na medicina. Doenças como tuberculose, câncer e diabetes já eram reconhecidas como conjuntos de sintomas e sinais antes que os avanços na ciência e na tecnologia pudessem identificar os mecanismos biológicos que causam cada doença.
Mas os pesquisadores ainda não chegaram a esse ponto no que diz respeito às doenças mentais. O psiquiatra e neurobiologista ganhador do Prêmio Nobel Eric Kandel escreveu a famosa frase de que “a última fronteira das ciências biológicas… é compreender a base biológica da consciência e os processos mentais pelos quais percebemos, agimos, aprendemos e nos lembramos”. Ele acreditava que resolver esse “desafio definitivo” requer a fusão da biologia celular com a psicologia para explicar o comportamento humano e a consciência em termos puramente biológicos.
Avanços na neurobiologia
Embora as pesquisas ainda estejam em andamento, já houve avanços significativos na neurobiologia da saúde mental desde a publicação da quinta edição do DSM. Acredito que três avanços parecem particularmente promissores.
O primeiro são os biomarcadores para a doença de Alzheimer. Até recentemente, o diagnóstico da doença de Alzheimer exigia histórico médico e exame clínico, bem como evidência post mortem de duas proteínas anormais associadas à doença, chamadas amiloide e tau. Em março de 2025, a Food and Drug Administration (FDA, a agência reguladora de alimentos e medicamentos nos EUA) aprovou um exame de sangue para detectar formas específicas dessas proteínas e ajudar a confirmar o diagnóstico de Alzheimer. Este é o primeiro caso de um biomarcador para uma doença que afeta tanto o cérebro quanto o comportamento.
A segunda categoria é a dos fatores imunes. O sistema imune tem sido associado a várias condições médicas, incluindo transtornos de humor, como a depressão. Por exemplo, a proteína C reativa (PCR) é uma molécula produzida pelo fígado em resposta a lesões e infecções. Aproximadamente 30% dos pacientes com depressão apresentam níveis elevados de PCR, o que sugere que ela possa servir como um biomarcador para identificar um subtipo de pacientes que possam responder melhor a certos tipos de tratamento do que aqueles com níveis mais baixos de PCR.
O terceiro grupo são os fatores de risco genéticos. Certos genes estão associados a um risco aumentado de desenvolver um transtorno mental. Esses genes de risco são diferentes dos genes de doença, que causam diretamente um transtorno. Pesquisadores associaram múltiplos genes de risco a vários transtornos mentais, e o efeito que cada variante genética exerce sobre o desenvolvimento de um transtorno mental é cumulativo. Agrupar essas variantes genéticas individuais no que é chamado de escore de risco poligênico poderia oferecer uma estimativa mais abrangente do risco de doença.
Embora os biomarcadores genéticos ainda não estejam prontos para uso clínico, a integração de fatores de risco genéticos e psicossociais pode ajudar a psiquiatria a fazer a transição para a era da medicina de precisão.
O futuro do DSM
Em 2013, o psiquiatra Henry Nasrallah realizou uma pesquisa online com colegas que visitavam a página da revista científica Current Psychiatry, da qual ele era editor-chefe. Ele escreveu que 65% dos entrevistados previam que o DSM-6 incluiria exames laboratoriais para diagnosticar transtornos psiquiátricos e que ele acreditava que eles poderiam estar certos. Treze anos depois, pesquisadores estão finalmente trabalhando para introduzir a biologia no DSM, uma descoberta de cada vez.
O DSM não é perfeito, mas oferece uma linguagem comum e uma estrutura conceitual para que os profissionais de saúde mental possam ajudar a apoiar os pacientes e suas famílias ao longo do longo percurso da doença mental.
Enquanto a ciência revela a verdade inconveniente sobre a complexidade dos transtornos mentais, acredito que a incorporação da neurociência ao DSM, à medida que a pesquisa avança, proporcionará aos profissionais uma perspectiva mais científica e ampla sobre a saúde mental. Um dia, pacientes poderão chegar à clínica com resultados de exames genéticos, exames de imagem cerebral e exames de sangue que sua equipe de saúde poderá usar para fornecer diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados.
Esse é o sonho que tenho para o futuro da psiquiatria.
Anand Kumar integrou o comitê estratégico do DSM da Associação Americana de Psiquiatria e seu subcomitê de biomarcadores e fatores biológicos.
Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.
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