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O poder sem rosto: prisão de Cerimedo na Bolívia expõe arquitetura oculta da extrema-direita na América Latina

Por Redação • 8 de setembro de 2026 às 10:29

O poder sem rosto: prisão de Cerimedo na Bolívia expõe arquitetura oculta da extrema-direita na América Latina

A política contemporânea produziu uma nova classe de intermediários. Eles não prestam contas à população, respondem apenas a quem os paga. São experts em comunicação política que não ocupam formalmente nenhum lugar no Estado, mas sua influência nos bastidores é inigualável. São criaturas forjadas em um mundo onde o biológico e o algorítmico se somam para manipular a informação, a população e, especialmente, o voto.

O argentino Fernando Cerimedo, preso recentemente na Bolívia sob suspeita de ordenar um ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller, grávida de quatro semanas, é uma figura exemplar desse novo ecossistema na América Latina. Ele passou anos assessorando campanhas digitais para líderes da extrema-direita em todo o continente. Esteve por trás das campanhas de José Antonio Kast no Chile (2025), Nasry Asfura em Honduras (2025), Rodrigo Paz na Bolívia (2025), Javier Milei na Argentina (2023) e Jair Bolsonaro no Brasil (2018). Em 2022, Cerimedo participou da ofensiva bolsonarista contra o resultado das eleições, difundindo alegações falsas de fraude nas urnas eletrônicas. Poucos operadores políticos circularam por tantos países em tão pouco tempo.

A rede tecida por Cerimedo é um emaranhado de fios que conecta Miami, Washington, Buenos Aires, Brasília e Santa Cruz. Sua trajetória revela algo essencial sobre a nova direita regional. A ligação entre os projetos da extrema-direita na América Latina não é apenas ideológica, mas sobretudo comercial. É um pacote replicável de guerra digital à venda para quem queira pagar por ele.

A fábrica da relevância artificial

Cerimedo entendeu e transformou em ferramenta política algo que outros partidos demoraram a perceber. Uma campanha eleitoral não se ganha mais com discursos e debates televisionados, nem sequer com distribuição de santinhos e contato físico com a população. É preciso criar uma identidade digital capaz de manipular os algoritmos que organizam as interações nas redes sociais para gerar visibilidade. Neste cenário, as emoções são transformadas em armas.

Seu método é tanto meticuloso quanto inovador. Cerimedo administra redes de milhares de contas artificiais criadas com inteligência artificial e manipuladas para parecerem reais. Seu objetivo é produzir comentários, respostas e reações em torno de um determinado assunto para manipular os algoritmos das redes sociais. Por sua vez, os algoritmos interpretam que o assunto gera interesse e passam a recomendá-lo a usuários reais. Cerimedo chama isso de produzir uma ‘relevância artificial’.

No momento de sua prisão na Bolívia, a polícia encontrou uma dessas estruturas em pleno funcionamento. A sua “fazenda de robôs” como foi chamada, era composta por dezenas de celulares conectados a um computador e programados para interagir nas redes sociais e saturar os sistemas com informações falsas e informações deturpadas. Esse organismo simbiótico vive e respira junto com as operações políticas convencionais que amplificam vozes, distorcem imagens e fabricam sua própria realidade.

No Brasil, essa atuação foi particularmente danosa. Poucos dias após as eleições de 2022, Cerimedo abriu uma live em suas redes sociais e espalhou mentiras sobre as urnas eletrônicas. Seus argumentos se basearam em um documento apócrifo e em uma análise estatística falsa para argumentar que determinados modelos de urna favoreciam Lula. A transmissão alcançou 475 mil visualizações e foi retransmitida por deputados bolsonaristas. As mentiras contadas por Cerimedo alimentaram os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Consequentemente, a Polícia Federal o indiciou em 2024 como único estrangeiro entre 37 investigados. As suspeitas incluíam golpe de Estado e organização criminosa. O procurador-geral, no entanto, não o denunciou formalmente por não haver provas de que ele soubesse que as informações eram falsas. Essa decisão revela a dificuldade estrutural de responsabilizar operadores que atuam por trás da criação, manipulação e publicação de dados e informações falsas. A verdade, aqui, se torna parcial e sempre passível de ser desfeita e reconfigurada por uma nova narrativa.

A rede transnacional e o tecno-autoritarismo

O que torna o caso Cerimedo particularmente relevante é sua dimensão transnacional. De acordo com diversas investigações, sua rede atuou para adaptar e difundir discursos trumpistas diretamente ligados ao movimento MAGA (Make America Great Again) em países da América Latina.

A agência de publicidade política Numen e o portal La Derecha Diario, ambos fundados por Cerimedo, faziam parte dessa estrutura. Entre 2022 e 2026, foram identificadas 5.286 publicações da rede, gerando 4,7 milhões de interações e quase 39 milhões de visualizações. Os temas incluíam questionamentos a processos eleitorais, vacinas, voto feminino, mudanças climáticas e taxação dos super-ricos.

No entanto, as conexões de Cerimedo vão além. Investigações apontam um vínculo estratégico com Brad Parscale, diretor das campanhas eleitorais de Donald Trump em 2016 e 2020. No Brasil, sua relação com a família Bolsonaro é particularmente estreita. Ele mantinha (e mantém) proximidade com Eduardo Bolsonaro, a quem recebeu em Buenos Aires em outubro de 2022, organizando encontros do então deputado com lideranças da extrema-direita argentina, incluindo Milei e Victoria Villarruel. Pouco depois, Cerimedo começou a disseminar mentiras sobre as eleições brasileiras.

A dimensão geográfica da rede não é acidental. Ela reflete uma estratégia de exportação de narrativas que circulam entre países por meio das redes sociais a fim de influenciar disputas políticas locais.

A hipótese de uma rede internacional com ramificações no Brasil, na Argentina, em Honduras, nos Estados Unidos e em Israel ganhou força. No centro da articulação estão Cerimedo, Eduardo Bolsonaro e operadores ligados a Donald Trump.

O deputado Rui Falcão (PT) protocolou no Supremo Tribunal Federal um pedido de cooperação jurídica com a Bolívia para investigar se a estrutura de bots seria usada para interferir nas eleições de outubro deste ano no Brasil.

As reações políticas

As reações à prisão de Cerimedo são bastante reveladoras. Na Argentina, Milei tratou o caso como uma possível operação política contra ele. O presidente argentino chegou a sugerir que o caso seria uma armação do ex-presidente Evo Morales com o presidente Lula. Isso ocorre num momento em que a relação de Cerimedo com o governo argentino já se deteriorava. Dias antes de sua prisão, Cerimedo vendeu suas ações e se desvinculou do portal La Derecha Diario, além de expressar divergências com a secretária-geral da Presidência, Karina Milei.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, também denunciou a operação. Ela acusou o portal La Derecha Diario de operar uma rede financiada pela direita para impulsionar notícias falsas e manipular a opinião pública na América Latina. Sheinbaum vinculou a operação a patrocínios privados, mencionando o empresário Ricardo Salinas Pliego.

O Congresso do Chile aprovou a criação de uma comissão investigadora para esclarecer eventuais conexões entre Cerimedo e o entorno do presidente Kast. A influência de Cerimedo no Chile remonta a 2020, quando divulgou uma pesquisa de sua empresa Numen que não refletia o que diziam os levantamentos chilenos durante o processo constituinte.

As revelações deste caso

O caso Cerimedo é menos sobre um homem e mais sobre um modelo de fazer política. É sobre a emergência de uma nova configuração de poder: uma política que não se baseia em identidades fixas, mas em alianças temporárias, em hibridismos, em fronteiras porosas entre o humano e a máquina, o nacional e o transnacional, o verdadeiro e o falso.

A extrema-direita latino-americana profissionalizou uma indústria digital que circula entre países, administra exércitos de contas falsas, movimenta dinheiro e constrói uma blindagem através da proximidade com o poder. O negócio da desinformação reside na amplificação de conteúdos enganosos para manipular percepções e minar a confiança em grande escala e com baixo custo. A recorrência do fenômeno mostra que não estamos diante de episódios isolados. Plataformas opacas, mensageria fechada, influenciadores pagos, dinheiro difícil de rastrear e uma inteligência artificial hiper-realista agravam o problema.

Mesmo que a evidência não confirme que a desinformação determina o voto individual, ela deteriora as condições em que a cidadania forma seu juízo. Essas operações ativam respostas emocionais que erodem o diálogo público, atacando autoridades eleitorais, resultados e adversários. A trajetória de Cerimedo é sintomática de um sistema que premia a opacidade, a manipulação emocional e a vantagem tecnológica sem responsabilidade.

Fica em aberto se a Bolívia terá autonomia para investigar até o fim um homem que assessorava diretamente o presidente do país. Fica em aberto se o Brasil investigará a interferência estrangeira nas eleições de 2022 e, potencialmente, nas eleições de 2026. Fica em aberto, sobretudo, se a América Latina aprenderá a olhar para os bastidores, onde o poder realmente se constrói.

The Conversation

Bárbara Diniz tem bolsa de pós-doutorado da CAPES (Projeto Pro-Defesa V/UNESP) Também é pesquisadora do GEDES - Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (UNESP).

Fonte: The Conversation Brasil. Matéria original.

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